Apresentação da Carta Pastoral
“BRILHE A VOSSA LUZ DIANTE DOS HOMENS”
1.CONTEXTO DA CARTA E SIGNIFICADO
Saúdo cordialmente todos os dedicados colaboradores na missão da Igreja, amados de Deus e chamados a ser santos e dou graças a Deus pelo dom do sacerdócio (ou do diaconado) que vos foi confiado para servir o povo de Deus. Neste Ano Sacerdotal manifesto o profundo reconhecimento da Igreja pelo trabalho sacrificado que realizais. Somos poucos na diocese, mas com a graça de Deus que opera em nós e unidos em comunhão eclesial podemos cumprir a missão que o Senhor espera de nós. Saúdo os que estão pela primeira vez como colaboradores na missão apostólica nesta diocese e agradecemos a Deus a eles e aos seus bispos que os enviaram a missão que vêm realizar.
Dizia o cardeal Humes em Fátima que a “A Igreja caminha pelos pés dos sacerdotes. Quando eles se movem a Igreja mexe. Quando eles param a Igreja para também. Por isso a Igreja deve muito aos seus padres e admira-os”. No arranque do ano pastoral é, certamente, com vontade de nos mexermos e imprimirmos impulso missionário à Igreja Diocesana que damos início às actividades pastorais.
Na definição do plano pastoral de cada ano, continuamos a seguir a inspiração dos discípulos de Emaús. Este Ícone tem-nos acompanhado desde o ano 2000 e ajudado a descobrir dimensões fundamentais da fé, algumas pouco consciencializadas e no entanto essenciais do cristianismo. Dimensões que fazem a diferença cristã, que alicerçam a nossa identidade de discípulos de Cristo.
No primeiro triénio aprofundamos a escuta da Palavra. No início do mistério cristão está a Palavra: “In Principio erat Verbum””. Cristão é o que acredita que Deus falou muitas vezes e de muitos modos e nos últimos falou-nos pelo Seu Filho. A fé cristã nasce e alimenta-se da Palavra. Devemos reconhecer que, na pastoral tradicional da Igreja Católica, antes do Vaticano II, nem sempre a Palavra Ocupou o lugar prioritário, Hoje, graças a Deus, a Palavra é valorizada e apoiada pela lectio divina, pedagogia tão rica e tão antiga, recomendada já por São Gregório Magno. “Scriptura crescit cum legente” recomendava este grande papa (A compreensão da Escritura cresce em quem a lê, à medida que se lê). Continuamos, portanto a aprofundar esta forma de leitura orante da Bíblia. Pelo que me é dado observar, tem aumentado na nossa diocese o gosto e o número dos que vão descobrindo a riqueza da Palavra através da “lectio divina”.
No segundo triénio dedicámo-nos aos sacramentos. Cume e fonte da vida cristã, dimensão litúrgica tem sido tradicionalmente mais valorizada na Igreja Católica. A Palavra conduz ao sacramento e o sacramento realiza o que a palavra anuncia. Face à Reforma havia-se criado até a imagem da Igreja dos sacramentos (católica) e da Igreja evangélica da Palavra (Protestante). As duas dimensões, porém, são indissociáveis. Como Santo Agostinho nos lembra: “A palavra é um sacramento audível e o sacramento é uma palavra visível”. Por isso, a evangelização é feita pela palavra e pelos sacramentos. Continuamos, por isso, a prestar atenção à relação Palavra Sacramento. Este ano publicaremos orientações diocesanas para os sacramentos da Iniciação Cristã
No terceiro triénio em curso aprofundamos a vida cristã como comunhão e missão. “Quem acredita nunca está só” foi o lema do ano passado. Pelo Baptismo e pelos sacramentos somos recebidos na comunidade, vivemos em comunidade e somos chamados a construir comunidade. A comunidade recebe de Cristo a missão de iluminar os que andam na escuridão e construir o reino de Deus que é alegria e paz no Espírito Santo. No ano passado, realçamos a dimensão comunitária, este ano pastoral vamos destacar a dimensão missionária que faz também parte integrante do cristianismo: cristão é chamado a ser luz do mundo, missionário e evangelizador.
O Ano Paulino preparou-nos para a missão. São Paulo deu admirável exemplo do envio da Igreja ao mundo. O grande evangelizador viveu a experiência de Damasco como uma luz brilhante que o levou a ver que andava cego, a cair e a levantar-se. Essa luz foi-lhe oferecida para ele comunicar: “Vou enviar-te aos pagãos para lhes abrires os olhos e fazê-los passar das trevas à luz e da sujeição de Satanás para Deus (Act 26,18). De facto, o evangelho é poder de Deus para salvação de todo o crente (Rm 1,16), é uma força que vence o mal, ou seja, a sujeição a Satanás. É o Caminho, a Verdade e a Vida. Esta certeza leva São Paulo a afirmar. “Ai de mim se não evangelizar”.
Encontramos assim várias expressões com o mesmo significado, porventura com acentuações diferentes: evangelizar (anunciar a boa nova); fazer apostolado; ser missionário; ser portador da luz de Cristo; testemunhar a fé;. Escolhemos, apoiados pelos Conselho dos colaboradores, a expressão do Sermão da Montanha: “Brilhe a vossa luz diante dos homens” (Mt 5,16). Luz é uma imagem positiva, irradiante, constantemente presente na Sagrada Escritura (Antigo e Novo Testamento) e na liturgia. O Senhor Jesus é a luz do mundo (lúmen illuminans), luz que nos ilumina e nos transforma em iluminados (“lumen illuminatum”), segundo a expressão de São Gregório Magno. O cristão irradia a luz que Cristo derrama sobre ele (Cf Ef 5,14). A comunidade cristã é a comunidade dos iluminados. Se cada fiel, se cada um de nós for uma pequena luz junta á luz de todos os outros, formamos a cidade situada no cimo do monte que irradia a luz sobre os povos: “ As nações caminharão à sua luz” (Ap 21,24). “Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas, para chegarmos até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que oferecem a luz recebida dele” (Bento XVI SS 49). Quem são as luzes vizinhas, próximas do nosso quotidiano, as estrelas que guiam a nossa vida? Os que vivem com rectidão, os que concretizam a proposta do evangelho”. Os santos brilham, de forma admirável, como astros brilhante no firmamento da Igreja; os fiéis menos santos, como nós, embora de forma menos intensa, iluminam também o caminho para Deus.
Situada no contexto do Sermão da Montanha, a expressão “Brilhe a vossa luz diante dos homens” realça também a novidade cristã: O cristão vive no mundo, não se separa do mundo mas não vive de acordo com o mundo. É filho da luz e portador da luz. Pela sua forma de viver propõe uma alternativa à vida mundana inspirada pela vaidade, pelo egoísmo, pela sensualidade, pelas trevas da confusão e do pecado. Os discípulos de Jesus, que se esforçam por viver segundo as bem – aventuranças, tornam-se luz do mundo pelas suas boas obras de misericórdia, de solidariedade com os necessitados. Esta expressão esclarece ainda a relação com Cristo, (somos iluminados na medida em que acolhemos a sua luz e esta penetra em nós); e a relação dos cristãos entre si (como cidade situada no cimo do monte formam uma comunidade de iluminados que irradia a luz à sua volta).
2.URGÊNCIA DA MISSÃO
Precisamos de recuperar com urgência e com vigor o dinamismo da missão de levar a luz do evangelho a todos os homens. É a tarefa essencial da Igreja que as mudanças profundas da sociedade tornam ainda mais urgente, como afirma a Evangelii Nuntiandi “Evangelizar constitui de facto a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na Santa Missa”. (EN 14):
Parece ter enfraquecido nos católicos o sentido de missão. A luz do evangelho, em vez de irradiar à volta, parece esconder-se debaixo do alqueire. Muitos cristãos vivem a fé de forma envergonhada e escondida, como Nicodemos que ia de noite dialogar com Jesus para não ser visto. As Igrejas têm menos gente e gente mais idosa. No império do relativismo e do individualismo, a religião parece reduzir-se ao foro privado. Por isso, os tempos actuais desafiam-nos verdadeiramente a uma nova evangelização, como insistentemente nos recomendou o Papa João Paulo II.
A transmissão da fé de geração em geração de pais para filhos conhece uma ruptura. “Eles depois que decidam…” dizem os pais para justificar a sua demissão da tarefa da educação. Sentem-se pouco à-vontade para guiar os filhos na relação com Deus, para os iniciar e aconselhar sobre a prática religiosa. A cultura actual vem agudizar esta situação. Além de desvalorizar o papel educativo da família, favorece o relativismo, o agnosticismo e a indiferença religiosas.
A fé é acusada, por vezes, de ultrapassada. Uma expressão frequente de alguns políticos e governantes é a necessidade de ser moderno, progressista e isso significa aceitar comportamentos fracturantes como o aborto, casamento dos homossexuais e cortar com os sinais religiosos e os valores éticos da matriz cristã: o respeito pela vida, pela família, etc. Mostra-se a tendência a relegar o cristianismo para a esfera privada e a esvaziar a sociedade, concretamente a escola pública, de referências religiosas. O cristianismo é entendido como tradição ultrapassada e inibidora da liberdade e do progresso.
Estão de volta as suspeitas sobre a religião como estádio de evolução da humanidade já ultrapassado (Comte), como fonte de neurose (Freud) ou como o ópio do povo(Marx). O ateísmo está em alta, encontra novos defensores. Sem Deus haverá mais progresso, maior felicidade, maior desenvolvimento da humanidade, prometem estes iluminados. O ateísmo militante reaparece “Provavelmente Deus não existe! Goza a vida”, como foi publicitado em várias cidades da Europa. O ateísmo hoje não é uma questão só de intelectuais. Torna-se presente no seio das nossas comunidades. No diálogo com os jovens candidatos ao crisma, vem ao de cima referências à opinião dos colegas ateus.
O agnosticismo tem alastrado também. Pessoas há que receberam uma tradição cristã e apreciam e respeitam os valores genuínos da fé cristã que conhecem e lêem textos cristãos mas não acreditam. Estão nesta situação vários jornalistas lidos quotidianamente (Público; Expresso; etc). Questionam e criticam as deformações e infidelidades. O agnosticismo parece tornar-se uma moda dos tempos modernos.
Tem crescido igualmente o paganismo que se exprime em manifestações selvagens ou espontâneas de religiosidade como consulta de videntes; leitura de horóscopos; crença na reincarnação.
Outra realidade que, na nossa época, se coloca por vezes em paralelo com a religião, são as ideologias políticas. Há partidos políticos, designadamente o marxismo, que são entendidos como uma religião de salvação secular, cuja ideologia é um dogma mais inquestionável que a verdade revelada da fé cristã, cujos fundadores são venerados com santos (oração ao Pai Lenine).
Aparece mesmo, designadamente em Espanha e em Portugal, um secularismo agressivo, um laicismo arrogante, entendidos como ideologia única, sem respeito pela liberdade religiosa dos crentes. Em Espanha tem havido alguns desacatos contra edifícios de culto católico, fachadas pintadas, frases de intolerância religiosa escritas lugares públicos. Um responsável da juventude socialista afirmou há dias em Espanha que “manter hoje os crucifixos pendurados nas paredes dos colégios é manter viva a chama da intolerância e a imposição”.
Emerge uma sociedade cada vez mais afastada da fé e da matriz cristã. Mais feliz? Mais humana? Mais desenvolvida como prometem os defensores da suspeita religiosa? Não. Em vez do desenvolvimento ético e humano, verifica-se um recuo moral. A sociedade descrente é mais individualista, mais desconfiada, mais egoísta, mais insolidária, mais supersticiosa. Deus faz falta ao homem e à sociedade. Sem Deus o homem fica sem defesa, sem rumo, sem consciência, sem critérios de bem e do mal, fechado no gozo individualista da vida. Sem Deus temos uma humanidade mais pobre e entregue a si mesma. Perde-se a paixão pela verdade, tudo se torna relativo e instrumentalizado em função do ego. Fecham os ouvidos à verdade para os abrir às fábulas, como dizia São Paulo.
Deus faz falta. Sem a luz vinda de Deus a humanidade é surpreendida pela falta de orientação, fica desamparada face ao sofrimento, sem estímulo para discernir o bem do mal e lutar contra o mal. A morte de Deus tem acarretado a morte do homem. Como notou um grande pensador teólogo do século XX (Henri de Lubac): “Não é verdade que o homem não possa organizar a terra sem Deus. O certo é que não pode, afinal de contas, senão organizá-la contra o homem”
Ficará mais emancipada e mais inteligente? Parece suceder o contrário. Mais dependente da moda, da aparência, dos vícios, mais supersticiosa. Como concluía o humorista e filósofo inglês Chesterton: “Desde que os homens deixaram de acreditar em Deus, não é que não acreditem em nada: Pelo contrário, agora acreditam em tudo”.
Na semana passada, veio no “Público” (15 de Setembro 09) um artigo de Maria Filomena Mónica sobre a nova edição de um livro de Chesterton, a “Ortodoxia” em que o autor narra as razões da sua conversão ao cristianismo que a jornalista e historiadora Filomena conclui assim. “Em resumo, a sua conversão foi a forma como ele reagiu à arrogância, limitação e estupidez dos positivistas do seu tempo”. Transcreve depois o que pensa o filósofo sobre o agnóstico comum: “O agnóstico é descrente por uma série de razões – todas elas falsas. Ele duvida porque a Idade Média foi uma idade bárbara, quando a verdade é que não foi; porque o darwinismo está provado, quando a verdade é que não está; porque não há milagres, quando a verdade é que há; porque os monges são preguiçosos, quando a verdade é que eram diligentes; porque as freiras são infelizes, quando a verdade é que são particularmente alegres; porque a arte cristã era triste e apagada, quando a verdade é que era feita de cores berrantes e recoberta a ouro; porque a ciência moderna está a afastar-se do sobrenatural quando a verdade é que está a aproximar-se”. E Filomena Mónica remata: “Muito do que afirma é um disparate, mas isso não me impede de gostar de o ler”.
3. SINAIS DA PROCURA DE DEUS
Os sintomas de recuo da fé cristã desperta em muitos fiéis sensação de serem “o resto de Israel”, ou seja, um número cada vez mais reduzido. Este sentimento provoca algum desconforto, como se fôssemos uma espécie em vias de extinção.
“No entanto a civilização continua mais cristã do que se diz” (Simon 72). Verificamos muitos sinais da procura de Deus. Na Europa, apesar da mentalidade laicista, persistem as tradições cristãs: Nos momentos cruciais da vida humana as pessoas procuram a igreja. São pontos de contacto e de apoio que podem servir da base para a evangelização. As Jornadas JMJ congregam centenas de milhares ou milhões de jovens; Taizé reúne multidões; Fátima ao domingo tem mais participantes que qualquer comício ((100.000 um destes domingos);
O homem procura Deus. “O homem é capaz de Deus” afirma o CIC no 1º capítulo: “Deus não cessa de atrair o homem para si e só em Deus é que o homem encontra e verdade e a felicidade que não se cansa de procurar. São Paulo em Atenas partiu desta constatação e afirmou que Ele não está longe de cada um de nós”. Mas esta relação pode ser esquecida e até explicitamente rejeitada (CIC 29). Os países da cortina de ferro mostram ainda as marcas da propaganda do ateísmo
Na oração universal de Sexta-Feira Santa pedimos ao Senhor (VIII intenção) “pelos que não crêem em Deus para que buscando com sinceridade o que é recto cheguem ao conhecimento do verdadeiro Deus”. O presidente dirige depois esta oração: “Deus eterno e omnipotente que criastes todos os homens para que Vos procurem e, encontrando-vos, em Vós descansem; concedei-lhes que, no meio das dificuldades, percebendo os sinais do Vosso amor e o testemunho dos crentes, todos se alegrem de Vos reconhecer como Único Deus verdadeiro e Pai de todos os homens”. Se a lex orandi é a lex credendi, que nos ensina esta oração? O homem que procura Deus descobre caminhos de acesso: os sinais do amor de Deus e o testemunho dos crentes.
Afirma igualmente que as pessoas têm um sentido e um desejo de bondade, de rectidão, de justiça, de verdade, de perfeição (beleza). Notamos uma grande sensibilidade à injustiça. Procurando o que é recto, bom, belo e verdadeiro chega-se a Deus. São apelos profundos do coração humano que revelam a imagem de Deus gravada em nós. Deus criou o homem para que O procure, como a terra árida procura água.
Para falar de Deus devemos partir dos sinais de procura e situar-nos no tempo e na cultura em vivemos. Deus desperta interesse se responder às questões que o homem vive, se for de encontro às suas interrogações existenciais. Por isso, temos necessidade de conhecer o mundo, analisar a cultura e descobrir a sede de Deus. Notamos sinais de regresso do religioso. Existe abertura à fé e sensibilidade religiosa. Em vez de condenar o mundo, somos chamados a amar o mundo na luz de Deus que de tal modo amou o mundo que lhe entregou o Seu Filho. Fazemos parte do mundo enquanto criação de Deus e somos enviados como portadores da luz do evangelho fonte de esperança para o mundo.
4. CAMINHOS DE EVANGELIZAÇÃO
4.1 Mudança de paradigma na transmissão da fé
As mudanças na acção pastoral são motivadas pela mudança de situação: uma vez que a fé não é apoiada pelo ambiente cristão da sociedade, precisamos de formar os cristãos na vivência de um cristianismo de convicções pessoais, assente na decisão livre e esclarecida de cada um, revitalizado por uma experiência pessoa de fé. Como se alcança este perfil de cristão convicto e participativo? Nos primeiros séculos quando encontrou uma situação idêntica, a Igreja criou uma pedagogia própria inspirada pela intuição do caminho e organizou o catecumenado. Um caminho faz-se caminhando. ”Irão subindo com entusiasmo sempre crescente até ver a Deus em Sião”, como reza um salmo. O catecumenado apresenta-se como um percurso de crescimento contínuo em ordem à configuração com Cristo.
No itinerário catecumenal, desempenham uma importância fundamental os exercícios de vida cristã que permitam ver, experimentar, fazer. Aprendemos quando fazemos (o que ouvimos esquecemos, sobretudo quando não compreendemos bem com o é o caso do mistério cristão). Aprendemos a rezar rezando; aprendemos a escutar Deus na Palavra escutando e fazendo a leitura orante; aprendemos a comunidade partilhando, participando; aprendemos a viver a fé exercitando a sua prática.
Onde se faz hoje esta aprendizagem prática da fé cristã? As crianças, adolescentes e jovens não a fazem em geral na família. E na catequese? Nota-se um sentimento de ineficácia da catequese. Precisamos de recuperar algumas intuições do catecumenado. A carta pastoral refere alguns aspectos no nº 4 – Pedagogia da evangelização partindo da missão do evangelizador e não do caminho do candidato como já foi abordada em documentos anteriores; evangelizador como guia; em comunhão eclesial; empregando a pedagogia dos sinais (ícones; rituais; experiência pessoal); caminho em comunidade; importância do primeiro anúncio.
No percurso catecumenal é fundamental e decisivo o primeiro passo ou primeira evangelização ou primeiro anúncio que dá início ao percurso da fé. Dedicar-se ao primeiro anúncio é um desafio que ajuda a Igreja a renovar-se e é também uma fonte de reanimação da vida sacerdotal. No Kerigma ou “missão ad gentes”, os fiéis, nomeadamente o sacerdote, redescobrem o dom e a alegria de levar uma boa nova aos que andam sem esperança.
Temos propostas do primeiro anúncio já experimentadas, à nossa disposição, e possibilidade de encontrar outras. Precisamos de dar atenção e tempo a novos caminhos para realizar uma nova evangelização e anunciar o Kerigma.
Concluindo e repetindo:
a) na dinâmica de evangelização e na perspectiva de iniciação à experiência pessoal de fé, desempenham uma função importante os exercícios de vida cristã como retiros, oração pessoal e comunitária, vigílias de oração com momentos de silêncio e de partilha, peregrinações, o contacto com a memória do cristianismo, etc.
b) inspirar a nossa acção pastoral pela pedagogia catecumenal significa pôr em funcionamento as etapas do crescimento cristão: 1 proporcionar um encontro jubiloso (feliz) com Jesus Cristo (primeiro anúncio); 2 oferecer propostas acessíveis de formação permanente no sentido vital referido; 3 comunicar a experiência pessoal de fé a outros (grupo; família; comunidade); 4 participar nos serviços pastorais da comunidade, designadamente no serviço de acolhimento e visitação.
4.2. Mudança de estilo
Da manutenção à missão. O estilo missionário confere força centrífuga à acção pastoral: em vez de apenas atender e assistir os que vem porque já estão motivados, hoje é igualmente importante ir à procura, chamar, cativar, sensibilizar, convidar.
Antes de mais, acolher os que vêm, ouvindo-os com atenção, mesmo que seja pouco tempo. As pessoas têm necessidade de ser conhecidas pelo nome, ouvidas, apreciadas, compreendidas. Por isso, é indispensável definir e anunciar na comunidade tempos de atendimento.
Mas o estilo missionário leva-nos a ir ao encontro de todos, mesmo dos que não vêm, dos afastados, dos caídos e feridos. Através da presença nos lugares de convívio, de cultura e de sofrimento, da visita domiciliar, da saudação amiga, do convite pessoal.
Precisamos também de chamar os distraídos, de motivar os que não vêm. O som dos sinos já não faz chegar o chamamento da Igreja aos destinatários. Como ir ao encontro deles e chamá-los? Cada um vai descobrindo formas concretas, como: Fazer campanhas para as fazer chegar às pessoas através de desdobráveis, de contactos pessoais, da comunicação social. Precisamos de chegar aos nossos contemporâneos e motivá-los
para a celebração do sacramento do matrimónio; para o baptismo; para a catequese dos filhos; para as vocações sacerdotais. Estas realidades nem sempre aparecem espontaneamente. Temos de as despertar “in loco”, com trabalho de campo.
Mudança de tom. O Monge Anselm Grün, em Fátima, no Simpósio, realçou a importância de transmitir imagens positivas do cristianismo. De facto, evangelizar é comunicar uma boa nova, uma notícia agradável, jubilosa. Vale a pena ser sacerdote para ajudar as pessoas a viver de cabeça erguida, com ânimo e esperança no futuro que a Deus pertence. O cristianismo identifica-se pelo sinal da cruz mas esta é uma porta que abre para a ressurreição. Deve ser apresentado, portanto, como um caminho para uma vida mais bela, irradiante, realizada. Renunciamos para alcançar a liberdade, a paz, o amor e a justiça. O cristianismo é um humanismo, uma proposta de liberdade, um serviço à dignidade da pessoa e à qualidade de vida na sociedade humana.
Na nossa pregação devemos anunciar caminhos e indicar saídas para a crise em vez de lamentar apenas e condenar. Os crentes ao sair das celebrações para regressar à vida quotidiana deveriam deixar transparecer no rosto a alegria e a esperança da fé.
O tom positivo da pregação está associado e decorre de uma visão positiva da vida, da igreja, dos outros, de nós mesmos. Devemos aprender a ver as coisas boas da vida, a vislumbrar a luz para além das trevas, a apreciar as qualidades sem nos fixarmos nos defeitos. Por vezes restringimos a nossa apreciação a um calcanhar de Aquiles e chegamos a juízos mesquinhos longe da realidade global da pessoa. Ou seja, devemos aprender a ver na luz de Deus, na perspectiva do Seu amor tanto os outros como a nós, tanto a sociedade como a igreja.
A apresentação de imagens positivas convida-nos a recorrer à linguagem concreta e viva das imagens, tanto da Bíblia como do património cultural, a recorrer à música, a encenações, eventos. Jesus empregava uma linguagem viva que deve inspirar a nossa: linguagem dos sinais, dos gestos, dos exemplos, das parábolas. Precisamos de ícones, de exemplos vivos e cativantes (os santos como comentário ao evangelho). As homilias necessitam mais do que nunca, de uma preparação cuidada para que sejam breves, interessantes, organizadas e centradas num tema.
Mudança de relação com a sociedade. A evangelização é um serviço à sociedade e às pessoas. Por isso, devemos adoptar um estilo de relação marcado pelo diálogo e pela solidariedade e com a sociedade, um estilo de serviço e não de poder.
Não podemos esquecer que o diálogo tem dois tempos: 1º ouvir, compreender, aprender; 2º tomas a palavra a visão e o caminho da fé. Após o Concílio, reconhecemos hoje que ficámos só no primeiro tempo. Procuramos corresponder às expectativas da sociedade mas omitimos frequentemente a proposta da fé, o anúncio do pecado, da graça, a proposta da espiritualidade, da humildade, da conversão a Jesus Cristo. “Alguns interpretaram a abertura ao mundo não como uma exigência de missão mas como uma secularização” (Bento XVI). O cristianismo é sal e luz, fermento que transforma.
Passar da manutenção à evangelização não se trata, portanto, de criar novas estruturas ou iniciativas mas de imprimir dinamismo missionário aos serviços, movimento e organização que temos já.
5. PERFIL MISSIONÁRIO DO CRISTÃO E DA COMUNIDADE
1.O poder das trevas desafia-nos a ser missionários
O poder das trevas leva-nos a recorrer com confiança a Deus, na oração, e a cumprir o mandato missionário de Jesus de forma dedicada e inteligente. Como vencer as trevas com a luz de Cristo? O segredo está na renovação espiritual dos crentes. Na medida em que forem fiéis ao desígnio de Deus “que os predestinou para serem uma imagem idêntica à de Seu Filho” (Rm 29), então a luz de Cristo pode transparecer no rosto deles e, assim, iluminar o mundo.
2.Perfil missionário do cristão
O cristão é, antes de mais, discípulo de Cristo. Descobriu em Cristo um amigo em quem pode confiar, o caminho que conduz à verdade e à vida, o mestre que vale a pena seguir, o Salvador a quem entrega a realização da sua existência. Na medida em que cada cristão se converter em discípulo, nessa medida será também missionário.
Discípulo não é apenas uma pessoa religiosa com fé em Deus, mas aquele que encontrou no seu caminho Cristo Ressuscitado, como Paulo no caminho de Damasco, e em Cristo descobriu o rosto visível de Deus.
A força interior do discípulo alicerça-se na sua experiência pessoal de fé. O discípulo é o que está unido ao Mestre, navega com Ele na mesma nave que é a Igreja e, por isso, não teme as tempestades. A experiência de fé cultiva-se com exercícios espirituais, amadurece progressivamente na leitura meditada e orante da Bíblia e na catequese, torna-se viva com a atitude de oração, a celebração dos sacramentos e a participação
Jesus dá muita importância à formação dos discípulos. Chama-os de entre a multidão para estarem mais próximos d’Ele, explica-lhes pacientemente as parábolas, corrige as suas fragilidades, ensina-lhes o caminho da verdade, da liberdade, da fraternidade, prepara-os para depois os enviar a anunciar o evangelho.
Discípulo e missionário é o perfil do cristão capaz de levar a luz de Cristo ao mundo envolvido pelas trevas. Um cristão é portador da luz quando alcança convicções firmes, quando está esclarecido da sua identidade e responsabilidade; um cristão é capaz de iluminar quando adopta uma atitude construtiva e confiante perante o mundo: “Não tenhais medo! Eu venci o mundo!”
3.Mediações para a missão
O discípulo e missionário irradia a luz de Cristo antes de mais pelas suas obras.
O testemunho de vida é complementado pelo anúncio explícito de Jesus Cristo (EN 22 e 42).
O anúncio explícito passa pelo contacto pessoal (EN 46: ““haverá melhor forma de evangelizar do que transmitir a sua experiência pessoal de fé?” (EN 46).
A comunhão eclesial, já presente no apostolado individual, encontra expressão específica e maior força nos grupos e movimentos eclesiais e nas comunidades cristãs.
3.Perfil da comunidade missionária
A mediação principal da evangelização é a Igreja. “A luz de Cristo resplandece no rosto da Igreja, anunciando o evangelho a todos os povos” (LG 1).
Uma comunidade missionária começa por ser uma comunidade de discípulos preocupada por transmitir a fé, irradiar a luz, congregar os que andam dispersos, fortalecer a fé dos membros frágeis ou confusos e procurar os afastados. Uma comunidade missionária não se ocupa apenas dos que já vêm mas está aberta e têm como destinatários também os que estão de fora.
Para formar uma comunidade missionária é necessário chamar pessoas para fazerem o caminho de discípulos. De entre a multidão passiva das nossas paróquias, temos de convidar alguns para um grupo bíblico, outros para uma iniciativa do primeiro anúncio, outros ainda para prepararem, através do catecumenado, algum sacramento da iniciação cristã.
No sentido de animar a dimensão missionária da vida cristã e das comunidades propõe-se que se forme um grupo especificamente dedicado à missão, “grupo de acolhimento e missão (ou visitação)”.
A preocupação missionária deve estar presente também nos serviços pastorais (catequese; liturgia; caridade, administração do património; presença activa e construtiva da sociedade justa e fraterna).
A vitalidade missionária da comunidade está dependente ainda da prática da corresponsabilidade. Para que uma comunidade possa realizar com qualidade tão diversas actividades, e face à actual diminuição do clero, é indispensável pôr em funcionamento uma equipa responsável de catequese com função de coordenação e formação; uma equipa orientadora e dinamizadora da liturgia; de uma equipa de caridade; de uma equipa familiar que se dedique à evangelização e formação da família; de um grupo de jovens que tenha iniciativas em ordem a evangelizar outros jovens.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
O ESPÍRITO SANTO, SOPRA!
O ESPÍRITO SANTO, SOPRA!
Abaixo transcrevo cinco textos significativos sobre o regresso à Igreja Católica de milhares de Anglicanos Tradicionalistas:
» Papa prepara Constituição Apostólica para admitir anglicanos no seio da Igreja Católica Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
NOTA DA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ SOBRE OS ORDINARIATOS PESSOAIS PARA OS ANGLICANOS QUE ENTRAM NA IGREJA CATÓLICA
Com a preparação de uma Constituição Apostólica, a Igreja Católica responde às numerosas solicitações que foram submetidas à Santa Sé por grupos de clérigos e fiéis anglicanos provenientes de diversas partes do mundo, os quais desejam entrar em plena e visível comunhão.
Nesta Constituição Apostólica, o Santo Padre introduziu uma estrutura canónica que prevê tal reunião corporativa através da instituição de Ordinariatos Pessoais, que permitirão aos fiéis outrora anglicanos entrarem na plena comunhão com a Igreja Católica, conservando ao mesmo tempo elementos do específico património espiritual e litúrgico anglicano. Segundo o teor da Constituição Apostólica a vigilância e a condução pastoral para tais grupos de fiéis outrora anglicanos será assegurada por um Ordinariato Pessoal, cujo Ordinário será usualmente nomeado dentre o clero até então anglicano.
A Constituição Apostólica que será logo publicada representa uma resposta razoável e mesmo necessária para um fenómeno global, oferecendo um único modelo canónico para a Igreja universal adaptável a diversas situações locais e, na sua aplicação universal, justo para os até então anglicanos. Tal modelo prevê a possibilidade de ordenação de clérigos casados, até então anglicanos, como sacerdotes católicos. Razões históricas e ecuménicas não permitem a ordenação de homens casados como bispos, tanto na Igreja Católica como nas Ortodoxas. Portanto, a Constituição determina que o Ordinário seja um sacerdote ou um bispo não casado. Os seminaristas do Ordinariato sejam preparados junto com outros seminaristas católicos, ainda que o Ordinariato possa abrir uma casa de formação a fim de responder às necessidades particulares de formação no património litúrgico anglicano. Deste modo, a Constituição Apostólica procura criar um equilíbrio entre o interesse de conservar o precioso património litúrgico e espiritual anglicano de um lado, e a preocupação que estes grupos e o seu clero sejam incorporados na Igreja Católica.
O Cardeal William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que preparou tal provisão, afirmou: “Procuramos vir ao encontro, de modo unitário e justo, dos pedidos de uma plena união que foram submetidos da parte de fiéis anglicanos provenientes de várias partes do mundo nos anos recentes. Com tal proposta a Igreja pretende responder às legítimas aspirações destes grupos anglicanos por uma comunhão plena e visível com o Bispo de Roma, o sucessor de São Pedro”.
Estes Ordinariatos Pessoais serão instituídos segundo as necessidades, prévia consulta com as Conferências Episcopais locais e as suas estruturas serão de algum modo semelhantes às dos Ordinariatos Militares, que foram erigidos em tantos países para providenciar o cuidado pastoral dos membros das forças armadas e de seus dependentes no mundo inteiro. “Os anglicanos que fizeram contacto com a Santa Sé expressaram claramente o seu desejo por uma plena e visível comunhão na Igreja uma, santa, católica e apostólica. Ao mesmo tempo nos falaram da importância de suas tradições anglicanas relativas à espiritualidade e ao culto para o próprio caminho de fé”, afirmou o Cardeal Levada.
A provisão desta nova estrutura está em conformidade com o empenho pelo diálogo ecuménico, que continua sendo uma prioridade para a Igreja Católica, em particular através dos esforços do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. “A iniciativa provém de vários grupos de anglicanos”, acrescentou o Cardeal Levada. “Eles declararam condividir a comum fé católica, como expressa no Catecismo da Igreja Católica, e aceitar o ministério petrino como um elemento desejado por Cristo para a Igreja. Para eles é chegado o tempo de exprimir tal união implícita em uma forma visível de plena comunhão”.
Segundo o Cardeal Levada: “O Santo Padre Bento XVI espera que os clérigos e fiéis anglicanos desejosos de união com a Igreja Católica encontrem nesta estrutura canónica a oportunidade de preservar as tradições anglicanas que lhes sejam preciosas e estejam em conformidade com a fé católica. Enquanto exprimem de modo distinto a fé professada em comum, tais tradições são um dom a ser condividido com a Igreja universal. A união com a Igreja não requer a uniformidade que ignora as diversidades culturais, como demonstra a história do cristianismo. Além do mais, as numerosas e diversas tradições hoje presentes na Igreja Católica estão todas radicadas no princípio formulado por São Paulo na sua Carta aos Efésios: “Um só Senhor, uma só fé, um só baptismo” (4,5). A nossa comunhão é, pois, reforçada por tais diversidades legítimas, e estamos felizes que estes homens e mulheres ofereçam as suas contribuições particulares à nossa comum vida de fé”.
Informações contextuais
Desde o século XVI, quando o Rei Henrique VIII declarou a independência da Igreja da Inglaterra em relação à autoridade do Papa, a Igreja da Inglaterra criou as próprias confissões doutrinais, usos litúrgicos e práticas pastorais, incorporando frequentemente ideias da Reforma ocorrida no continente europeu. A expansão do Reino Britânico, conjugada ao apostolado missionário anglicano, comportou depois o nascimento de uma Comunhão Anglicana a nível mundial.
No curso dos mais de 450 anos de sua história, a questão da reunião entre anglicanos e católicos jamais foi deixada de lado. Na metade do século XIX, o Movimento de Oxford (na Inglaterra) mostrou um renovado interesse pelos aspectos católicos do anglicanismo. No início do século XX, o Cardeal Mercier, da Bélgica, engajou-se em colóquios públicos com anglicanos a fim de explorar a possibilidade de uma reunião com a Igreja católica sob a bandeira de um anglicanismo “reunido, mas não absorvido”.
O Concílio Vaticano II nutriu ulteriormente a esperança de uma união, em particular com o Decreto sobre o ecumenismo (n.13), o qual, fazendo referência às Comunidades separadas da Igreja Católica no tempo da Reforma, reafirmou: “Entre aquelas [comunhões] nas quais continuam a subsistir em parte as tradições e as estruturas católicas, ocupa um lugar especial a Comunhão Anglicana”.
Desde o Concílio as relações entre anglicanos e católico-romana criaram um clima melhor de compreensão e cooperação mútua. A Comissão Internacional Anglicano-Católico Romana (ARCIC) produziu uma série de declarações doutrinais no curso dos anos, na esperança de criar a base de uma plena e visível união. Para muitos membros das duas Comunhões, as declarações da ARCIC puseram à disposição um instrumento no qual a comum expressão da fé pode ser reconhecida. É nesta moldura que se deve enquadrar a nova provisão.
Nos anos sucessivos ao Concílio, alguns anglicanos abandonaram a tradição de conferir as Ordens Sacras apenas a homens, chamando ao presbitério e ao episcopado também as mulheres. Mais recentemente, alguns segmentos da Comunhão Anglicana se distanciaram do comum ensinamento bíblico acerca da sexualidade humana – já claramente expresso no documento da ARCIC “Vida em Cristo” – conferindo as Ordens Sacras a clérigos abertamente homossexuais e abençoando as uniões entre pessoas do mesmo sexo. Todavia, enquanto a Comunhão Anglicana deve enfrentar estes novos e difíceis desafios, a Igreja Católica permanece plenamente empenhada no seu diálogo ecuménico com a Comunhão Anglicana, em particular através da actividade do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.
Muitos anglicanos entraram individualmente na plena comunhão com a Igreja Católica. Algumas vezes entraram também grupos de anglicanos, conservando uma certa estrutura “corporativa”. Isto aconteceu, por exemplo, com a diocese anglicana de Amritsar na Índia e com algumas paróquias nos Estados Unidos que, embora mantendo uma identidade anglicana, entraram na Igreja Católica no quadro da assim chamada “provisão pastoral”, adoptado pela Congregação para a Doutrina da Fé e aprovado pelo Papa João Paulo II em 1982. Nestes casos, a Igreja Católica frequentemente dispensou do requisito do celibato admitindo que aqueles clérigos anglicanos casados que desejam continuar o serviço ministerial como sacerdotes católicos sejam ordenados na Igreja Católica.
Neste contexto, os Ordinariatos Pessoais instituídos segundo a supra-mencionada Constituição Apostólica podem ser vistos como um passo ulterior em direcção à realização da aspiração à plena e visível união na única Igreja, que é um dos fins principais do movimento ecuménico.
Fonte: Santa Sé Tradução: OBLATVS
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Comunicado do Primaz da Comunhão Anglicana Tradicional 20/10/2009
Passei a tarde de hoje [ontem] falando com bispos, padres e leigos da Comunhão Anglicana Tradicional na Inglaterra, África, Índia, Canadá, Estados Unidos e América do Sul.
Estamos profundamente comovidos pela generosidade do Santo Padre, Papa Bento XVI. Ele oferece nesta Constituição Apostólica os meios para que os “ex-anglicanos entrem na plenitude da comunhão com a Igreja católica”. Ele espera que nós possamos “encontrar nesta estrutura canónica a oportunidade para preservar aquelas tradições anglicanas que nos são preciosas e consistentes com a fé católica”. Ele então declara calorosamente: “ficamos felizes porque estes homens e mulheres trazem consigo suas contribuições particulares para nossa comum vida de fé”.
Em primeiro lugar, seja-me permitido afirmar que este é um ato de grande bondade da parte do Santo Padre. Ele tem dedicado seu pontificado à causa da unidade. Tal ato ultrapassa os sonhos que ousamos incluir em nossa petição de dois anos atrás. Ele ultrapassa nossas orações. Nestes dois anos, tomamos consciência das orações de nossos irmãos na Igreja Católica. Talvez suas orações ousaram pedir mais que as nossas.
Enquanto esperamos o texto completo da Constituição Apostólica, também estamos comovidos pela natureza pastoral da Nota publicada hoje [ontem] pela Congregação para a Doutrina da Fé. Meus colegas bispos, de facto, já firmaram o Catecismo da Igreja Católica e fizeram uma declaração sobre o ministério do Bispo de Roma, reflectindo as palavras do Papa João Paulo II em sua carta “Ut Unum Sint”.
Outros grupos anglicanos manifestaram à Santa Sé um desejo semelhante e uma aceitação semelhante da fé católica. Como indicado pelo Cardeal Levada, esta resposta aos pedidos dos anglicanos terá um carácter global. Cabe agora a estes grupos forjar uma cooperação directa, mesmo onde eles transcendam os actuais limites da Comunhão Anglicana.
Felizmente, a declaração publicada pelo Arcebispo de Cantuária reflecte a compreensão que tem de nós, que ele não se interpõe em nosso caminho e entende as decisões que tomamos. Tanto esta reacção quanto nosso pedido são frutos de um século de oração pela unidade dos cristãos, uma causa que muitas vezes pareceu vã. Expressamos agora nossa gratidão ao Arcebispo Williams e, com frequência, lhe asseguramos nossas orações. A Sé de Agostinho permanece sendo o foco de nossa peregrinação, como o fora nos anos de fé no passado.
Eu me comprometi com a Comunhão Anglicana Tradicional para que a resposta à Santa Sé será dada por cada um de nossos Sínodos Nacionais. Eles já haviam endossado nosso caminho. Agora a Santa Sé nos instiga a procurar nas estruturas específicas que agora estão disponíveis a “plena e visível unidade, especialmente a Comunhão Eucarística”, pela qual há muito tempo rezamos e com a qual há muito sonhamos. Tal processo começará imediatamente.
No Ofício Anglicano Matutino, o grande Hino de Acção de Graças, o Te Deum, é parte do Ordo diário. É com profundo agradecimento ao Deus Todo-Poderoso, o Senhor e Fonte de toda paz e unidade, que este hino está hoje em nossos lábios. Este é um momento de graças, talvez mesmo um momento histórico, não porque o passado seja desfeito, mas porque o passado é transformado.
Arcebispo John Hepworth
Primaz
Tradução: OBLATVS http://oblatvs.blogspot.com/2009/10/papa-prepara-constituicao-apostolica.html
» Quinta-feira, 22/10/2009: Roma quer atrair os anglicanos tradicionais
- W. Oppenheimer e M. Andrade - Em Londres e Roma
O papa Bento 16 decidiu criar uma nova estrutura para receber, possivelmente, centenas de milhares de tradicionalistas que renegam a visão progressista da Igreja Anglicana em relação à homossexualidade e ao papel das mulheres na igreja. Pela primeira vez desde a reforma protestante e a ruptura entre a igreja inglesa e Roma no século 16, o papa estabeleceu as bases para que comunidades inteiras de anglicanos possam ser admitidas na Igreja Católica sem que tenham de renunciar a sua liturgia.
Isso significa que Roma aceitará em seu seio sacerdotes casados (como já faz com os católicos do rito oriental), mas os bispos anglicanos que aderirem à nova congregação não serão reconhecidos como bispos e os sacerdotes que entrarem nela solteiros não poderão se casar posteriormente. Até agora, os anglicanos que negavam as posições progressistas de sua igreja não tinham alternativa senão aceitá-las, combatê-las por dentro ou se converter totalmente ao catolicismo.
Saiba mais
O papa Bento 16 chega para a sua oração semanal na Praça de São Pedro, no Vaticano
Bento 16 dá passo histórico e facilita conversão de anglicanosAnúncio do Vaticano deve gerar êxodo de sacerdotes anglicanosIniciativa pró-conversão de Bento 16 pode esvaziar anglicanismoPelos caminhos de Newman e de Tony Blair
A primeira consequência que se pode esperar desse anúncio histórico é uma forte diminuição do número de fiéis anglicanos, que hoje somam cerca de 77 milhões em todo o mundo, especialmente de sacerdotes. A segunda é que se abre o caminho para que a Igreja Anglicana aprove a ordenação de mulheres bispos sem nenhum tipo de obstáculo, transformando-se assim em pólo de atracção dos cristãos que crêem que sua fé não é incompatível com a igualdade entre homens e mulheres e que renegam a obsessiva agressividade dos tradicionalistas em relação aos homossexuais. Isto é, a Igreja Anglicana pode perder peso, mas pode ganhar em coerência interna e afastar o fantasma do cisma.
Outra consequência pode ser um maior equilíbrio entre anglicanos e católicos no Reino Unido, onde se estima que existam cerca de 25 milhões de anglicanos e 5 milhões de católicos. A nova estrutura criada por Roma abre as portas particularmente aos chamados anglo-católicos, uma corrente do anglicanismo que se sente mais próxima da liturgia católica que da protestante e que nunca digeriu totalmente a ordenação de mulheres sacerdotes, para não falar no desenvolvimento de mulheres bispos.
A nova estrutura foi apresentada nesta Terça-feira em Roma pelo cardeal americano William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em uma entrevista colectiva na qual explicou que a iniciativa "responde a diversos pedidos por parte de clérigos e fiéis anglicanos procedentes de diversas partes do mundo que querem entrar em plena comunhão com Roma".
Para reflectir sua abertura aos tradicionalistas anglicanos, o papa Bento 16 decidiu elaborar uma constituição apostólica, decreto de categoria máxima e facto excepcional na igreja, que prevê a criação de prelaturas pessoais como a que ostenta actualmente o Opus Dei. Desse modo, as comunidades anglicanas que decidirem entrar na Igreja Católica dependerão de um bispo particular, e não do que lhes corresponderia territorialmente em função da diocese em que residem.
O cardeal Levada defendeu que a constituição apostólica representa "uma resposta razoável e necessária a um fenómeno global e oferece um único modelo canónico para a igreja universal adaptável a diversas situações locais". Mas descartou que será estendida a comunidades como a de São Pio X, que reúne seguidores do integralismo católico representado por Marcel Lefebvre. "Não há nenhuma relação entre a abertura para os anglicanos e o próximo início do colóquio com os lefebvrianos", previsto para 26 de Outubro, disse.
Paralelamente ao comparecimento de Levada em Roma, ocorreu uma entrevista colectiva conjunta em Londres do arcebispo anglicano de Canterbury, Rowan Williams, e o primaz católico da Inglaterra e Gales, o arcebispo de Westminster, Vincent Nichols. Alguns viram um símbolo dos novos tempos no facto de que o encontro tenha se realizado em território de Nichols.
Os dois líderes eclesiásticos emitiram uma nota conjunta em que comemoraram que a iniciativa "põe fim a um período de incerteza para os grupos que alimentaram esperanças de novas vias para abraçar a unidade com a Igreja Católica". Mas alguns analistas salientaram nesta Terça-feira que a nova estrutura significa de facto o fim da aproximação entre as Igrejas Católica e Anglicana.
Rowan Williams, um progressista que ganhou críticas dos dois sectores do anglicanismo por suas tentativas de contentar a alguns sem agravar a outros, esforçou-se para reduzir a importância do anúncio do Vaticano, que na sua opinião "não tem um impacto negativo nas relações da comunhão como um todo com a Igreja Católica".
"Não é um acto de agressão, não é uma declaração de desconfiança. É 'business as usual' [uma situação normal]", afirmou Williams. Mas o arcebispo de Canterbury não pôde ocultar seu desagrado pelo facto de que o Vaticano não só não o consultou sobre suas intenções como se limitou a lhe comunicar seus planos há apenas "algumas semanas", admitiu Williams, com o rosto vermelho de contrariedade.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves http://noticias.uol.com.br/
Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009: Património Anglicano?
Respostas sobre a incorporação dos anglicanos
Recebi alguns questionamentos (na forma de comentário, que reproduzo em negrito abaixo) sobre o processo de incorporação dos anglicanos tradicionalistas na Igreja Católica. Incorporar, formar o mesmo corpo; acho que essa é a palavra mais adequada, embora não soe agradável.
I - A não exigência do celibato para sacerdotes não é tradição no ocidente. Isso pode gerar problemas
R – Não acredito. Mas esse é o pensamento lógico, contudo já há o que se chama de Provisão Pastoral criada por João Paulo II para receber os pastores anglicanos norte-americanos. Nessa Provisão não há a necessidade do celibato. Então, é uma experiência já provada na Igreja latina e não houve grandes transtornos ou questionamentos. É claro que agora isso reacenderá discussões, é inevitável, mas não será por muito tempo. Veremos mais do mesmo, exactamente quando a Provisão Pastoral foi criada. O que Bento XVI fez foi "apenas" ampliar a provisão para o mundo todo e dar uma hierarquia a ela, porque os actuais padres-anglicanos de hoje estão subordinados a um bispo romano e aos bispos diocesanos locais.
II - Em relação à liturgia, temo que haja ainda mais confusão, haverá três ritos correntes no ocidente(há outros ritos lícitos no ocidente, como o ambrosiano, mas estes não são correntes). Temo que isso afecte a Universalidade, com dois ritos correntes já dá uma confusão tremenda, três, então...
R – Também não se aplica. Veja que o rito “anglicano” será de uso exclusivo dos fiéis que integrarão este ordinariato. É o mesmo caso com o rito ambrosiano, por exemplo, onde só os fiéis de Milão o vivem mais intensamente (há celebrações esporádicas nos EUA, mas são raras...). Da mesma forma que o Summorum Pontificum não teve qualquer efeito nos melquitas, o rito anglicano não nos afectará.
III - Não entendo como pode haver um "património litúrgico anglicano”. Ora esse património é fruto de um cisma, da protestantização da religião católica, pode a árvore envenenada dar frutos bons...
R – Os frutos são justamente o uso litúrgico, as orações, etc. É justamente para evitar que esses “venenos” entrem junto com as coisas boas que o Vaticano faz um estudo sério de todo o aspecto teológico em questão. Orações que favorecem a heterodoxia são eliminadas, mas ainda sim sobram coisas boas. Para a criação da Provisão, já na década de 80, o Papa João Paulo II confiou todo o trabalho à Congregação para Doutrina da Fé, para que tudo fosse analisado e purificado. Assim os anglicanos da provisão ficaram com uma liturgia, por exemplo, muito próxima do seu antigo rito anglicano, favorecendo a adaptação na Igreja Católica.
Autor Danilo Augusto http://igrejauna.blogspot.com/
Perito esclarece: Porta aberta aos anglicanos não é para ex-sacerdotes católicos casados - Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
Um prestigioso teólogo católico americano converso do anglicanismo, explicou que o anúncio da Santa Sé sobre a criação do Ordinariatos Pessoais para acolher aos paroquianos e clérigos anglicanos, não é uma porta aberta para os ex-sacerdotes católicos que abandonaram a Igreja nem tampouco permite que os sacerdotes em funções contraiam matrimónio.
O Padre George Rutler (foto), que durante nove anos foi sacerdote episcopaliano –membro da comunhão anglicana-, converteu-se ao catolicismo e foi ordenado sacerdote católico. Ele escreveu mais de 14 livros de teologia, tem um programa televisivo no canal católico EWTN e é pároco em Nova Iorque.
Em declarações à agência Catholic News Agency, que integra o Grupo ACI, o perito lamentou que a imprensa “desinformada e sempre sensacionalista em temas de religião”, concentre-se na admissão de sacerdotes anglicanos casados no seio da Igreja.
Para exercer o ministério sacerdotal na Igreja Católica, “estes sacerdotes anglicanos casados deverão ser ordenados completa e validamente por um bispo católico. Seguindo o costume ortodoxo, eles puderam casar-se somente antes da ordenação anglicana e não depois. E nenhum homem casado se converterá em bispo”, explicou o Padre Rutler esclarecendo que a Igreja não está abrindo uma porta a aqueles ex-sacerdotes católicos que abandonaram a Igreja e contraíram matrimónio.
Além disso, assinalou que “os bispos anglicanos que se unam aos ‘ordinariatos’ (católicos) já não serão reconhecidos como bispos. Por uma concessão especial, os bispos anglicanos terão certo direito de autoridade pastoral, mas não serão bispos”.
Segundo o sacerdote, com esta cobertura jornalística se perde de vista “o ponto mais importante”: “O anúncio da Santa Sé reitera a insistência da Igreja Católica em que as sagradas ordens anglicanas são inválidas, e em consequência também sua eucaristia”.
Para o Padre Rutler, será necessário ver quantos anglicanos (episcopalianos nos Estados Unidos) serão recebidos na Igreja Católica sob estas condições, mas o anúncio confirma “a rápida desintegração do anglicanismo ao menos no Ocidente e desafia radicalmente os anglicanos em outras partes do mundo”.
O perito considerou que os pedidos massivos de ingresso na Igreja Católica, são “uma bofetada ao anglicanismo liberal e um repúdio total da ordenação de mulheres, o matrimónio homossexual e o descuido geral da doutrina no anglicanismo. De facto, trata-se de um rechaço definitivo do anglicanismo”.
“Basicamente, o anglicanismo se interpreta como um património espiritual apoiado na tradição étnica em lugar da doutrina substancial e deixa em claro que não é uma igreja histórica, mas sim uma comunidade eclesiástica, que se desviou e agora é convidada a retornar à comunhão com o Papa como Sucessor do Pedro”, indicou.
Também destacou o cuidado do anúncio no Vaticano, realizado em simultâneo com uma conferência de imprensa do Arcebispo católico de Westminster e o Arcebispo anglicano de Canterbury em que disseram que a próxima constituição reconhece o património espiritual do anglicanismo e que o diálogo ecuménico segue adiante.
Enviado por: José Pechorro, Paróquia da Póvoa da Isenta.
Abaixo transcrevo cinco textos significativos sobre o regresso à Igreja Católica de milhares de Anglicanos Tradicionalistas:
» Papa prepara Constituição Apostólica para admitir anglicanos no seio da Igreja Católica Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
NOTA DA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ SOBRE OS ORDINARIATOS PESSOAIS PARA OS ANGLICANOS QUE ENTRAM NA IGREJA CATÓLICA
Com a preparação de uma Constituição Apostólica, a Igreja Católica responde às numerosas solicitações que foram submetidas à Santa Sé por grupos de clérigos e fiéis anglicanos provenientes de diversas partes do mundo, os quais desejam entrar em plena e visível comunhão.
Nesta Constituição Apostólica, o Santo Padre introduziu uma estrutura canónica que prevê tal reunião corporativa através da instituição de Ordinariatos Pessoais, que permitirão aos fiéis outrora anglicanos entrarem na plena comunhão com a Igreja Católica, conservando ao mesmo tempo elementos do específico património espiritual e litúrgico anglicano. Segundo o teor da Constituição Apostólica a vigilância e a condução pastoral para tais grupos de fiéis outrora anglicanos será assegurada por um Ordinariato Pessoal, cujo Ordinário será usualmente nomeado dentre o clero até então anglicano.
A Constituição Apostólica que será logo publicada representa uma resposta razoável e mesmo necessária para um fenómeno global, oferecendo um único modelo canónico para a Igreja universal adaptável a diversas situações locais e, na sua aplicação universal, justo para os até então anglicanos. Tal modelo prevê a possibilidade de ordenação de clérigos casados, até então anglicanos, como sacerdotes católicos. Razões históricas e ecuménicas não permitem a ordenação de homens casados como bispos, tanto na Igreja Católica como nas Ortodoxas. Portanto, a Constituição determina que o Ordinário seja um sacerdote ou um bispo não casado. Os seminaristas do Ordinariato sejam preparados junto com outros seminaristas católicos, ainda que o Ordinariato possa abrir uma casa de formação a fim de responder às necessidades particulares de formação no património litúrgico anglicano. Deste modo, a Constituição Apostólica procura criar um equilíbrio entre o interesse de conservar o precioso património litúrgico e espiritual anglicano de um lado, e a preocupação que estes grupos e o seu clero sejam incorporados na Igreja Católica.
O Cardeal William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que preparou tal provisão, afirmou: “Procuramos vir ao encontro, de modo unitário e justo, dos pedidos de uma plena união que foram submetidos da parte de fiéis anglicanos provenientes de várias partes do mundo nos anos recentes. Com tal proposta a Igreja pretende responder às legítimas aspirações destes grupos anglicanos por uma comunhão plena e visível com o Bispo de Roma, o sucessor de São Pedro”.
Estes Ordinariatos Pessoais serão instituídos segundo as necessidades, prévia consulta com as Conferências Episcopais locais e as suas estruturas serão de algum modo semelhantes às dos Ordinariatos Militares, que foram erigidos em tantos países para providenciar o cuidado pastoral dos membros das forças armadas e de seus dependentes no mundo inteiro. “Os anglicanos que fizeram contacto com a Santa Sé expressaram claramente o seu desejo por uma plena e visível comunhão na Igreja uma, santa, católica e apostólica. Ao mesmo tempo nos falaram da importância de suas tradições anglicanas relativas à espiritualidade e ao culto para o próprio caminho de fé”, afirmou o Cardeal Levada.
A provisão desta nova estrutura está em conformidade com o empenho pelo diálogo ecuménico, que continua sendo uma prioridade para a Igreja Católica, em particular através dos esforços do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. “A iniciativa provém de vários grupos de anglicanos”, acrescentou o Cardeal Levada. “Eles declararam condividir a comum fé católica, como expressa no Catecismo da Igreja Católica, e aceitar o ministério petrino como um elemento desejado por Cristo para a Igreja. Para eles é chegado o tempo de exprimir tal união implícita em uma forma visível de plena comunhão”.
Segundo o Cardeal Levada: “O Santo Padre Bento XVI espera que os clérigos e fiéis anglicanos desejosos de união com a Igreja Católica encontrem nesta estrutura canónica a oportunidade de preservar as tradições anglicanas que lhes sejam preciosas e estejam em conformidade com a fé católica. Enquanto exprimem de modo distinto a fé professada em comum, tais tradições são um dom a ser condividido com a Igreja universal. A união com a Igreja não requer a uniformidade que ignora as diversidades culturais, como demonstra a história do cristianismo. Além do mais, as numerosas e diversas tradições hoje presentes na Igreja Católica estão todas radicadas no princípio formulado por São Paulo na sua Carta aos Efésios: “Um só Senhor, uma só fé, um só baptismo” (4,5). A nossa comunhão é, pois, reforçada por tais diversidades legítimas, e estamos felizes que estes homens e mulheres ofereçam as suas contribuições particulares à nossa comum vida de fé”.
Informações contextuais
Desde o século XVI, quando o Rei Henrique VIII declarou a independência da Igreja da Inglaterra em relação à autoridade do Papa, a Igreja da Inglaterra criou as próprias confissões doutrinais, usos litúrgicos e práticas pastorais, incorporando frequentemente ideias da Reforma ocorrida no continente europeu. A expansão do Reino Britânico, conjugada ao apostolado missionário anglicano, comportou depois o nascimento de uma Comunhão Anglicana a nível mundial.
No curso dos mais de 450 anos de sua história, a questão da reunião entre anglicanos e católicos jamais foi deixada de lado. Na metade do século XIX, o Movimento de Oxford (na Inglaterra) mostrou um renovado interesse pelos aspectos católicos do anglicanismo. No início do século XX, o Cardeal Mercier, da Bélgica, engajou-se em colóquios públicos com anglicanos a fim de explorar a possibilidade de uma reunião com a Igreja católica sob a bandeira de um anglicanismo “reunido, mas não absorvido”.
O Concílio Vaticano II nutriu ulteriormente a esperança de uma união, em particular com o Decreto sobre o ecumenismo (n.13), o qual, fazendo referência às Comunidades separadas da Igreja Católica no tempo da Reforma, reafirmou: “Entre aquelas [comunhões] nas quais continuam a subsistir em parte as tradições e as estruturas católicas, ocupa um lugar especial a Comunhão Anglicana”.
Desde o Concílio as relações entre anglicanos e católico-romana criaram um clima melhor de compreensão e cooperação mútua. A Comissão Internacional Anglicano-Católico Romana (ARCIC) produziu uma série de declarações doutrinais no curso dos anos, na esperança de criar a base de uma plena e visível união. Para muitos membros das duas Comunhões, as declarações da ARCIC puseram à disposição um instrumento no qual a comum expressão da fé pode ser reconhecida. É nesta moldura que se deve enquadrar a nova provisão.
Nos anos sucessivos ao Concílio, alguns anglicanos abandonaram a tradição de conferir as Ordens Sacras apenas a homens, chamando ao presbitério e ao episcopado também as mulheres. Mais recentemente, alguns segmentos da Comunhão Anglicana se distanciaram do comum ensinamento bíblico acerca da sexualidade humana – já claramente expresso no documento da ARCIC “Vida em Cristo” – conferindo as Ordens Sacras a clérigos abertamente homossexuais e abençoando as uniões entre pessoas do mesmo sexo. Todavia, enquanto a Comunhão Anglicana deve enfrentar estes novos e difíceis desafios, a Igreja Católica permanece plenamente empenhada no seu diálogo ecuménico com a Comunhão Anglicana, em particular através da actividade do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.
Muitos anglicanos entraram individualmente na plena comunhão com a Igreja Católica. Algumas vezes entraram também grupos de anglicanos, conservando uma certa estrutura “corporativa”. Isto aconteceu, por exemplo, com a diocese anglicana de Amritsar na Índia e com algumas paróquias nos Estados Unidos que, embora mantendo uma identidade anglicana, entraram na Igreja Católica no quadro da assim chamada “provisão pastoral”, adoptado pela Congregação para a Doutrina da Fé e aprovado pelo Papa João Paulo II em 1982. Nestes casos, a Igreja Católica frequentemente dispensou do requisito do celibato admitindo que aqueles clérigos anglicanos casados que desejam continuar o serviço ministerial como sacerdotes católicos sejam ordenados na Igreja Católica.
Neste contexto, os Ordinariatos Pessoais instituídos segundo a supra-mencionada Constituição Apostólica podem ser vistos como um passo ulterior em direcção à realização da aspiração à plena e visível união na única Igreja, que é um dos fins principais do movimento ecuménico.
Fonte: Santa Sé Tradução: OBLATVS
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Comunicado do Primaz da Comunhão Anglicana Tradicional 20/10/2009
Passei a tarde de hoje [ontem] falando com bispos, padres e leigos da Comunhão Anglicana Tradicional na Inglaterra, África, Índia, Canadá, Estados Unidos e América do Sul.
Estamos profundamente comovidos pela generosidade do Santo Padre, Papa Bento XVI. Ele oferece nesta Constituição Apostólica os meios para que os “ex-anglicanos entrem na plenitude da comunhão com a Igreja católica”. Ele espera que nós possamos “encontrar nesta estrutura canónica a oportunidade para preservar aquelas tradições anglicanas que nos são preciosas e consistentes com a fé católica”. Ele então declara calorosamente: “ficamos felizes porque estes homens e mulheres trazem consigo suas contribuições particulares para nossa comum vida de fé”.
Em primeiro lugar, seja-me permitido afirmar que este é um ato de grande bondade da parte do Santo Padre. Ele tem dedicado seu pontificado à causa da unidade. Tal ato ultrapassa os sonhos que ousamos incluir em nossa petição de dois anos atrás. Ele ultrapassa nossas orações. Nestes dois anos, tomamos consciência das orações de nossos irmãos na Igreja Católica. Talvez suas orações ousaram pedir mais que as nossas.
Enquanto esperamos o texto completo da Constituição Apostólica, também estamos comovidos pela natureza pastoral da Nota publicada hoje [ontem] pela Congregação para a Doutrina da Fé. Meus colegas bispos, de facto, já firmaram o Catecismo da Igreja Católica e fizeram uma declaração sobre o ministério do Bispo de Roma, reflectindo as palavras do Papa João Paulo II em sua carta “Ut Unum Sint”.
Outros grupos anglicanos manifestaram à Santa Sé um desejo semelhante e uma aceitação semelhante da fé católica. Como indicado pelo Cardeal Levada, esta resposta aos pedidos dos anglicanos terá um carácter global. Cabe agora a estes grupos forjar uma cooperação directa, mesmo onde eles transcendam os actuais limites da Comunhão Anglicana.
Felizmente, a declaração publicada pelo Arcebispo de Cantuária reflecte a compreensão que tem de nós, que ele não se interpõe em nosso caminho e entende as decisões que tomamos. Tanto esta reacção quanto nosso pedido são frutos de um século de oração pela unidade dos cristãos, uma causa que muitas vezes pareceu vã. Expressamos agora nossa gratidão ao Arcebispo Williams e, com frequência, lhe asseguramos nossas orações. A Sé de Agostinho permanece sendo o foco de nossa peregrinação, como o fora nos anos de fé no passado.
Eu me comprometi com a Comunhão Anglicana Tradicional para que a resposta à Santa Sé será dada por cada um de nossos Sínodos Nacionais. Eles já haviam endossado nosso caminho. Agora a Santa Sé nos instiga a procurar nas estruturas específicas que agora estão disponíveis a “plena e visível unidade, especialmente a Comunhão Eucarística”, pela qual há muito tempo rezamos e com a qual há muito sonhamos. Tal processo começará imediatamente.
No Ofício Anglicano Matutino, o grande Hino de Acção de Graças, o Te Deum, é parte do Ordo diário. É com profundo agradecimento ao Deus Todo-Poderoso, o Senhor e Fonte de toda paz e unidade, que este hino está hoje em nossos lábios. Este é um momento de graças, talvez mesmo um momento histórico, não porque o passado seja desfeito, mas porque o passado é transformado.
Arcebispo John Hepworth
Primaz
Tradução: OBLATVS http://oblatvs.blogspot.com/2009/10/papa-prepara-constituicao-apostolica.html
» Quinta-feira, 22/10/2009: Roma quer atrair os anglicanos tradicionais
- W. Oppenheimer e M. Andrade - Em Londres e Roma
O papa Bento 16 decidiu criar uma nova estrutura para receber, possivelmente, centenas de milhares de tradicionalistas que renegam a visão progressista da Igreja Anglicana em relação à homossexualidade e ao papel das mulheres na igreja. Pela primeira vez desde a reforma protestante e a ruptura entre a igreja inglesa e Roma no século 16, o papa estabeleceu as bases para que comunidades inteiras de anglicanos possam ser admitidas na Igreja Católica sem que tenham de renunciar a sua liturgia.
Isso significa que Roma aceitará em seu seio sacerdotes casados (como já faz com os católicos do rito oriental), mas os bispos anglicanos que aderirem à nova congregação não serão reconhecidos como bispos e os sacerdotes que entrarem nela solteiros não poderão se casar posteriormente. Até agora, os anglicanos que negavam as posições progressistas de sua igreja não tinham alternativa senão aceitá-las, combatê-las por dentro ou se converter totalmente ao catolicismo.
Saiba mais
O papa Bento 16 chega para a sua oração semanal na Praça de São Pedro, no Vaticano
Bento 16 dá passo histórico e facilita conversão de anglicanosAnúncio do Vaticano deve gerar êxodo de sacerdotes anglicanosIniciativa pró-conversão de Bento 16 pode esvaziar anglicanismoPelos caminhos de Newman e de Tony Blair
A primeira consequência que se pode esperar desse anúncio histórico é uma forte diminuição do número de fiéis anglicanos, que hoje somam cerca de 77 milhões em todo o mundo, especialmente de sacerdotes. A segunda é que se abre o caminho para que a Igreja Anglicana aprove a ordenação de mulheres bispos sem nenhum tipo de obstáculo, transformando-se assim em pólo de atracção dos cristãos que crêem que sua fé não é incompatível com a igualdade entre homens e mulheres e que renegam a obsessiva agressividade dos tradicionalistas em relação aos homossexuais. Isto é, a Igreja Anglicana pode perder peso, mas pode ganhar em coerência interna e afastar o fantasma do cisma.
Outra consequência pode ser um maior equilíbrio entre anglicanos e católicos no Reino Unido, onde se estima que existam cerca de 25 milhões de anglicanos e 5 milhões de católicos. A nova estrutura criada por Roma abre as portas particularmente aos chamados anglo-católicos, uma corrente do anglicanismo que se sente mais próxima da liturgia católica que da protestante e que nunca digeriu totalmente a ordenação de mulheres sacerdotes, para não falar no desenvolvimento de mulheres bispos.
A nova estrutura foi apresentada nesta Terça-feira em Roma pelo cardeal americano William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em uma entrevista colectiva na qual explicou que a iniciativa "responde a diversos pedidos por parte de clérigos e fiéis anglicanos procedentes de diversas partes do mundo que querem entrar em plena comunhão com Roma".
Para reflectir sua abertura aos tradicionalistas anglicanos, o papa Bento 16 decidiu elaborar uma constituição apostólica, decreto de categoria máxima e facto excepcional na igreja, que prevê a criação de prelaturas pessoais como a que ostenta actualmente o Opus Dei. Desse modo, as comunidades anglicanas que decidirem entrar na Igreja Católica dependerão de um bispo particular, e não do que lhes corresponderia territorialmente em função da diocese em que residem.
O cardeal Levada defendeu que a constituição apostólica representa "uma resposta razoável e necessária a um fenómeno global e oferece um único modelo canónico para a igreja universal adaptável a diversas situações locais". Mas descartou que será estendida a comunidades como a de São Pio X, que reúne seguidores do integralismo católico representado por Marcel Lefebvre. "Não há nenhuma relação entre a abertura para os anglicanos e o próximo início do colóquio com os lefebvrianos", previsto para 26 de Outubro, disse.
Paralelamente ao comparecimento de Levada em Roma, ocorreu uma entrevista colectiva conjunta em Londres do arcebispo anglicano de Canterbury, Rowan Williams, e o primaz católico da Inglaterra e Gales, o arcebispo de Westminster, Vincent Nichols. Alguns viram um símbolo dos novos tempos no facto de que o encontro tenha se realizado em território de Nichols.
Os dois líderes eclesiásticos emitiram uma nota conjunta em que comemoraram que a iniciativa "põe fim a um período de incerteza para os grupos que alimentaram esperanças de novas vias para abraçar a unidade com a Igreja Católica". Mas alguns analistas salientaram nesta Terça-feira que a nova estrutura significa de facto o fim da aproximação entre as Igrejas Católica e Anglicana.
Rowan Williams, um progressista que ganhou críticas dos dois sectores do anglicanismo por suas tentativas de contentar a alguns sem agravar a outros, esforçou-se para reduzir a importância do anúncio do Vaticano, que na sua opinião "não tem um impacto negativo nas relações da comunhão como um todo com a Igreja Católica".
"Não é um acto de agressão, não é uma declaração de desconfiança. É 'business as usual' [uma situação normal]", afirmou Williams. Mas o arcebispo de Canterbury não pôde ocultar seu desagrado pelo facto de que o Vaticano não só não o consultou sobre suas intenções como se limitou a lhe comunicar seus planos há apenas "algumas semanas", admitiu Williams, com o rosto vermelho de contrariedade.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves http://noticias.uol.com.br/
Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009: Património Anglicano?
Respostas sobre a incorporação dos anglicanos
Recebi alguns questionamentos (na forma de comentário, que reproduzo em negrito abaixo) sobre o processo de incorporação dos anglicanos tradicionalistas na Igreja Católica. Incorporar, formar o mesmo corpo; acho que essa é a palavra mais adequada, embora não soe agradável.
I - A não exigência do celibato para sacerdotes não é tradição no ocidente. Isso pode gerar problemas
R – Não acredito. Mas esse é o pensamento lógico, contudo já há o que se chama de Provisão Pastoral criada por João Paulo II para receber os pastores anglicanos norte-americanos. Nessa Provisão não há a necessidade do celibato. Então, é uma experiência já provada na Igreja latina e não houve grandes transtornos ou questionamentos. É claro que agora isso reacenderá discussões, é inevitável, mas não será por muito tempo. Veremos mais do mesmo, exactamente quando a Provisão Pastoral foi criada. O que Bento XVI fez foi "apenas" ampliar a provisão para o mundo todo e dar uma hierarquia a ela, porque os actuais padres-anglicanos de hoje estão subordinados a um bispo romano e aos bispos diocesanos locais.
II - Em relação à liturgia, temo que haja ainda mais confusão, haverá três ritos correntes no ocidente(há outros ritos lícitos no ocidente, como o ambrosiano, mas estes não são correntes). Temo que isso afecte a Universalidade, com dois ritos correntes já dá uma confusão tremenda, três, então...
R – Também não se aplica. Veja que o rito “anglicano” será de uso exclusivo dos fiéis que integrarão este ordinariato. É o mesmo caso com o rito ambrosiano, por exemplo, onde só os fiéis de Milão o vivem mais intensamente (há celebrações esporádicas nos EUA, mas são raras...). Da mesma forma que o Summorum Pontificum não teve qualquer efeito nos melquitas, o rito anglicano não nos afectará.
III - Não entendo como pode haver um "património litúrgico anglicano”. Ora esse património é fruto de um cisma, da protestantização da religião católica, pode a árvore envenenada dar frutos bons...
R – Os frutos são justamente o uso litúrgico, as orações, etc. É justamente para evitar que esses “venenos” entrem junto com as coisas boas que o Vaticano faz um estudo sério de todo o aspecto teológico em questão. Orações que favorecem a heterodoxia são eliminadas, mas ainda sim sobram coisas boas. Para a criação da Provisão, já na década de 80, o Papa João Paulo II confiou todo o trabalho à Congregação para Doutrina da Fé, para que tudo fosse analisado e purificado. Assim os anglicanos da provisão ficaram com uma liturgia, por exemplo, muito próxima do seu antigo rito anglicano, favorecendo a adaptação na Igreja Católica.
Autor Danilo Augusto http://igrejauna.blogspot.com/
Perito esclarece: Porta aberta aos anglicanos não é para ex-sacerdotes católicos casados - Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
Um prestigioso teólogo católico americano converso do anglicanismo, explicou que o anúncio da Santa Sé sobre a criação do Ordinariatos Pessoais para acolher aos paroquianos e clérigos anglicanos, não é uma porta aberta para os ex-sacerdotes católicos que abandonaram a Igreja nem tampouco permite que os sacerdotes em funções contraiam matrimónio.
O Padre George Rutler (foto), que durante nove anos foi sacerdote episcopaliano –membro da comunhão anglicana-, converteu-se ao catolicismo e foi ordenado sacerdote católico. Ele escreveu mais de 14 livros de teologia, tem um programa televisivo no canal católico EWTN e é pároco em Nova Iorque.
Em declarações à agência Catholic News Agency, que integra o Grupo ACI, o perito lamentou que a imprensa “desinformada e sempre sensacionalista em temas de religião”, concentre-se na admissão de sacerdotes anglicanos casados no seio da Igreja.
Para exercer o ministério sacerdotal na Igreja Católica, “estes sacerdotes anglicanos casados deverão ser ordenados completa e validamente por um bispo católico. Seguindo o costume ortodoxo, eles puderam casar-se somente antes da ordenação anglicana e não depois. E nenhum homem casado se converterá em bispo”, explicou o Padre Rutler esclarecendo que a Igreja não está abrindo uma porta a aqueles ex-sacerdotes católicos que abandonaram a Igreja e contraíram matrimónio.
Além disso, assinalou que “os bispos anglicanos que se unam aos ‘ordinariatos’ (católicos) já não serão reconhecidos como bispos. Por uma concessão especial, os bispos anglicanos terão certo direito de autoridade pastoral, mas não serão bispos”.
Segundo o sacerdote, com esta cobertura jornalística se perde de vista “o ponto mais importante”: “O anúncio da Santa Sé reitera a insistência da Igreja Católica em que as sagradas ordens anglicanas são inválidas, e em consequência também sua eucaristia”.
Para o Padre Rutler, será necessário ver quantos anglicanos (episcopalianos nos Estados Unidos) serão recebidos na Igreja Católica sob estas condições, mas o anúncio confirma “a rápida desintegração do anglicanismo ao menos no Ocidente e desafia radicalmente os anglicanos em outras partes do mundo”.
O perito considerou que os pedidos massivos de ingresso na Igreja Católica, são “uma bofetada ao anglicanismo liberal e um repúdio total da ordenação de mulheres, o matrimónio homossexual e o descuido geral da doutrina no anglicanismo. De facto, trata-se de um rechaço definitivo do anglicanismo”.
“Basicamente, o anglicanismo se interpreta como um património espiritual apoiado na tradição étnica em lugar da doutrina substancial e deixa em claro que não é uma igreja histórica, mas sim uma comunidade eclesiástica, que se desviou e agora é convidada a retornar à comunhão com o Papa como Sucessor do Pedro”, indicou.
Também destacou o cuidado do anúncio no Vaticano, realizado em simultâneo com uma conferência de imprensa do Arcebispo católico de Westminster e o Arcebispo anglicano de Canterbury em que disseram que a próxima constituição reconhece o património espiritual do anglicanismo e que o diálogo ecuménico segue adiante.
Enviado por: José Pechorro, Paróquia da Póvoa da Isenta.
Subscrever:
Mensagens (Atom)