quarta-feira, 12 de maio de 2010

Encontro no Centro Cultural de Sua Santidade o Papa Bento XVI

Visita apostólica de Sua Santidade Bento XVI a Portugal

12 de Maio de 2010

Encontro /Cultura – Centro Cultural de Belém

SAUDAÇÃO AO SANTO PADRE

Santidade

É com muito contentamento e grande expectativa que Vos recebemos em Portugal e agora participamos neste encontro com o “mundo da cultura”.  Mundo que Vos é tão grato e, para nós, tão inevitável e urgente.

Creio falar em nome de todos os que aqui estamos, ao dizer-Vos, Santo Padre, que compartilhamos a Vossa preocupação constante em não reduzir a consistência cultural das nossas análises e actuações, como cidadãos responsáveis, lúcidos e intervenientes nos diversos sectores da sociedade nacional e internacional.

Tem sido este o Vosso apelo, na sequência do que sempre fizestes, num fértil percurso académico e literário, em que certamente nos inspiramos e inscrevemos, para o presente e o futuro.

Assumimos inteiramente a urgência que Vossa Santidade nos inculca. Tanto mais quanto verificamos as dificuldades levantadas à reflexão e à ponderação – à cultura, propriamente dita – pela velocidade, para não dizer a vertigem, com que hoje nos podemos distrair, de tópico em tópico, sem definir nem aprofundar propriamente nada.

Nas Vossas três encíclicas e em muito outros pronunciamentos oportunos, tendes-nos oferecido, Santo Padre, uma reflexão substancial e sistemática sobre tudo quanto nos interpela, para podermos realizar, em geral e na singularidade das vidas, a humanidade que a todos nos une. Humanidade que Jesus Cristo compartilhou connosco, dando-lhe densidade e finalização absolutas.

Queremos dizer-Vos, Santo Padre, que, em Portugal, a Vossa intenção cultural também é entendida e bem aceite por muitas personalidades das letras, das ciências e das artes, ainda além das fronteiras da confessionalidade estrita. Exactamente por compreenderem a base humana e razoável que Vossa Santidade nunca dispensa, uma vez que, como Santo Agostinho, detecta em cada pessoa o sinal e a expectativa de Deus, o único que satisfaz a inteligência e pacifica os corações.

Assim mesmo manifesta Vossa Santidade a atitude cultural mais necessária e completa, pois tanto sublinha a base comum em que geralmente nos reconhecemos, como estimula todos os passos do caminho intelectual, sem dispensar a luz que a vida e a palavra de Jesus de Nazaré magnificamente nos trouxeram.

Estamos certos de que este encontro nos confirmará a todos em igual propósito, tão propriamente cultural. Muito obrigado, Santo Padre, pela vontade que tivestes de estar connosco. Muito obrigado, Santo Padre, pela clarividência que sempre nos ofereceis.


+ Manuel Clemente Bispo do Porto e Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais


Encontro com o mundo da Cultura Sua Santidade o Papa Bento XVI

ENCONTRO COM O MUNDO DA CULTURA

CENTRO CULTURAL DE BELÉM

12 MAIO 2010

DISCURSO DO SANTO PADRE

Venerados Irmãos no Episcopado, Distintas Autoridades, Ilustres Cultores do Pensamento, da Ciência e da Arte, Queridos amigos, Sinto grande alegria em ver aqui reunido o conjunto multiforme da cultura portuguesa, que vós tão dignamente representais: Mulheres e homens empenhados na pesquisa e edificação dos vários saberes. A todos testemunho a mais alta amizade e consideração, reconhecendo a importância do que fazem e do que são. Às prioridades nacionais do mundo da cultura, com benemérito incentivo das mesmas, pensa o Governo, aqui representado pela Senhora Ministra da Cultura, para quem vai a minha deferente e grata saudação. Obrigado a quantos tornaram possível este nosso encontro, nomeadamente à Comissão Episcopal da Cultura com o seu Presidente, Dom Manuel Clemente, a quem agradeço as expressões de cordial acolhimento e a apresentação da realidade polifónica da cultura portuguesa, aqui representada por alguns dos seus melhores protagonistas, de cujos sentimentos e expectativas se fez porta-voz o cineasta Manoel de Oliveira, de veneranda idade e carreira, a quem saúdo com admiração e afecto juntamente com vivo reconhecimento pelas palavras que me dirigiu, deixando transparecer ânsias e disposições da alma portuguesa no meio das turbulências da sociedade actual.

De facto, a cultura reflecte hoje uma «tensão», que por vezes toma formas de «conflito», entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro. Mas uma tal valorização do «presente» como fonte inspiradora do sentido da vida, individual e em sociedade, confronta-se com a forte tradição cultural do Povo Português, muito marcada pela milenária influência do cristianismo, com um sentido de responsabilidade global, afirmada na aventura dos Descobrimentos e no entusiasmo missionário, partilhando o dom da fé com outros povos. O ideal cristão da universalidade e da fraternidade inspiravam esta aventura comum, embora a influência do iluminismo e do laicismo se tivesse feito sentir também. A referida tradição originou aquilo a que podemos chamar uma «sabedoria», isto é, um sentido da vida e da história, de que fazia parte um universo ético e um «ideal» a cumprir por Portugal, que sempre procurou relacionar-se com o resto do mundo.

A Igreja aparece como a grande defensora de uma sã  e alta tradição, cujo rico contributo coloca ao serviço da sociedade; esta continua a respeitar e a apreciar o seu serviço ao bem comum, mas afasta-se da referida «sabedoria»  que faz parte do seu património. Este «conflito» entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo. De facto, um povo, que deixa de saber qual é  a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objectivos grandiosos claramente enunciados. Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à  sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade. Com efeito, a Igreja «tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do ser humano, da sua dignidade, da sua vocação. […] A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 9). Para uma sociedade composta na sua maioria por católicos e cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo, é dramático tentar encontrar a verdade sem ser em Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Verdade é divina; é o «Logos» eterno, que ganhou expressão humana em Jesus Cristo, que pôde afirmar com objectividade: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6). A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras «verdades» ou com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade.

«A Igreja – escrevia o Papa Paulo VI – deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, a Igreja torna-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo» (Enc. Ecclesiam suam, 67). De facto, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai. Disso mesmo dá testemunho a presença da Santa Sé em diversos organismos internacionais, nomeadamente no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa instituído há 20 anos aqui em Lisboa, tendo como pedra angular o diálogo intercultural a fim de promover a cooperação entre a Europa, o Sul do Mediterrâneo e a África e construir uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos e as responsabilidades dos cidadãos, independentemente da própria origem étnica e adesão política, e respeitadora das crenças religiosas. Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.
Esta é uma hora que reclama o melhor das nossas forças, audácia profética, capacidade renovada de «novos mundos ao mundo ir mostrando», como diria o vosso Poeta nacional (Luís de Camões, Os Lusíades, II, 45). Vós, obreiros da cultura em todas as suas formas, fazedores do pensamento e da opinião, «tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e colectiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. […] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita» (Discurso, no meu encontro com os Artistas, 21/XI/2009).
Foi para «pôr o mundo moderno em contacto com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho» (João XXIII, Const. ap. Humanae salutis, 3) que se fez o Concílio Vaticano II, no qual a Igreja, a partir de uma renovada consciência da tradição católica, assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, ou seja, a Reforma e o Iluminismo. Assim a Igreja acolhia e recriava por si mesma, o melhor das instâncias da modernidade, por um lado, superando-as e, por outro, evitando os seus erros e becos sem saída. O evento conciliar colocou as premissas de uma autêntica renovação católica e de uma nova civilização – a «civilização do amor» - como serviço evangélico ao homem e à sociedade. Caros amigos, a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza.


 

Ser Cristão é viver na certeza do Amor de Deus!

Diz –nos João em 3,16 que “Deus de tal modo amou o mundo que lhe entregou o seu filho único para que todo o que N’Ele crer (...) tenha a vida eterna”.

Vida eterna, vida em abundância, vida plena no Amor de Deus, deste Deus que é Pai, é Filho e é Espírito Santo, deste Amor imenso que derrama da Trindade sobre toda a humanidade, este Amor que vem numa chuva de bênçãos sobre todos nós, e para as receber só é necessário estar de coração escancarado para acolher este Deus Palavra , este Deus Comunhão, é mesmo só abrir a porta do coração!

Diz S. Paulo “...se não tiver Amor sou como o bronze que retine” 1 Cor.13 . Se não tiver Amor, sou vazia, não tenho nada, e corro o risco de ter uma grande lixeira! “... Tudo o que tinha antes eu considerei como lixo...” S. Paulo.

Só vivendo do Amor de Deus, posso viver e ser: esperança, confiança, rectidão, bondade, fraterna, pobre do Amor de Deus, deixando assim brilhar em mim a luz de Deus.

Só assim posso testemunhar Cristo Ressuscitado.

Viver da entrega diária ao meu Senhor!

Tentando em cada dia “que não seja eu que viva, mas Cristo que vive em mim ”      S. Paulo. Viver o Amor  e no Amor de Deus é configurar-me com ele, ser uma nova criatura, deixar “o homem velho”, o pecado e ser fermento da vida nova e em abundância, que Jesus trouxe a todos aqueles que crêem na renovação de um mundo novo, mais solidário, mais fraterno, mais justo... para que a humanidade seja renovada e viva a paz que Jesus anunciou e deu à humanidade, de modo especial na pessoa dos Apóstolos “dou-vos a minha paz!”

Quem vive o Amor de Deus serve o irmão, partilha, mas partilha tudo: o Amor, o tempo, os bens materiais... tudo o que é e tem. “A alegria está no dar, mais do que no receber”.

Viver na alegria do Amor de Deus!

 

 

Não existe vida sem Amor, nem Amor sem vida!

Sem Amor não lhe chamarei vida, chamar-lhe-ei talvez, “vale de enganos”.

Quando alguém se distrai com outros “Amores”, a vida verdadeira, aquela que se alimenta do Amor de Deus, quem está distraído, quando acorda já é tarde, a vida passou, e eles passaram por qualquer outra coisa, que não foi vida, pois esta passou-lhes ao lado! Quem se fecha no egoísmo ou em qualquer outro “ismo”, não viveu, nem amou, aconteceu-lhe como à couve repolho, apodreceu!

Porque meteu muita água!...

Sou cristã e lembro o princípio da fé que professo “”Crê em Deus Pai...e em Jesus Cristo seu único Filho, Nosso Senhor o qual foi concebido pelo poder do Espírito Santo....

Pedras sempre nos hão-de atirar, porque a Cruz é própria da vida do Cristão, foi através d’ela que o mundo foi redimido.

O Cristão tem que crescer a partir de dentro, numa relação íntima com Deus (oração) e em  comunidade.

Acerca das confusões, lembra-me o disfarce da máscara. Há quem goste, de pôr máscara naquilo que não presta, para que passe de modo mais subtil, disfarçado!

O Amor de Deus de que nos fala tão bem S. Paulo 1 Cor 13, penso que desmascara qualquer confusão!

“ O Amor é paciente, é benigno, perdoa, não se ufana,...”

 

Construir a civilização do Amor.

Basta que cada um de nós, cada Cristão ponha em prática, lc.4, 18 – 19.

Somos Baptizados em Cristo, vivamos o nosso baptismo, sintamo-nos enviados, exercitemos os sacramentos da reconciliação, da comunhão, vivamos unidos a Cristo e tentemos que as nossas comunidades, imitem as primeiras citadas nos Actos dos Apóstolos “vejam como eles se amam!”

O Amor de Deus vivido por cada Cristão é o fermento necessário a este povo de Deus peregrino no mundo em busca da casa do pai!

 

 

 

                                                                                            Elisa Narciso de Andrade

 


terça-feira, 11 de maio de 2010

HOMILIA DO SANTO PADRE NA MISSA DO TERREIRO DO PAÇO
LISBOA, 11 DE MAIO DE 2010

Queridos Irmãos e Irmãs, Jovens
«Ide fazer discípulos de todas as nações, […] ensinai-lhes a cumprir tudo quanto vos mandei. E Eu
estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Estas palavras de Cristo ressuscitado
revestem-se de um significado particular nesta cidade de Lisboa, donde partiram em grande número
gerações e gerações de cristãos – bispos, sacerdotes, consagrados e leigos, homens e mulheres, jovens e
menos jovens –, obedecendo ao apelo do Senhor e armados simplesmente com esta certeza que lhes
deixou: «Eu estou sempre convosco». Glorioso é o lugar conquistado por Portugal entre as nações pelo
serviço prestado à dilatação da fé: nas cinco partes do mundo, há Igrejas locais que tiveram origem na
missionação portuguesa.
Nos tempos passados, a vossa saída em demanda de outros povos não impediu nem destruiu os
vínculos com o que éreis e acreditáveis, mas, com sabedoria cristã, pudestes transplantar experiências e
particularidades abrindo-vos ao contributo dos outros para serdes vós próprios, em aparente debilidade
que é força. Hoje, participando na edificação da Comunidade Europeia, levai o contributo da vossa
identidade cultural e religiosa. De facto, Jesus Cristo, assim como Se uniu aos discípulos a caminho de
Emaús, assim também caminha connosco segundo a sua promessa: «Estou sempre convosco, até ao fim
dos tempos». Apesar de ser diferente da dos Apóstolos, temos também nós uma verdadeira e pessoal
experiência da presença do Senhor ressuscitado. A distância dos séculos é superada e o Ressuscitado
oferece-Se vivo e operante, por nós, no hoje da Igreja e do mundo. Esta é a nossa grande alegria. No rio
vivo da Tradição eclesial, Cristo não está a dois mil anos de distância, mas está realmente presente entre
nós e dá-nos a Verdade, dá-nos a luz que nos faz viver e encontrar a estrada para o futuro.
Presente na sua Palavra, na assembleia do Povo de Deus com os seus Pastores e, de modo eminente,
no sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, Jesus está connosco aqui. Saúdo o Senhor Cardeal-Patriarca
de Lisboa, a quem agradeço as calorosas palavras que me dirigiu, no início da celebração, em nome da sua
comunidade que me acolhe e que abraço nos seus quase dois milhões de filhos e filhas; a todos vós aqui
presentes – amados Irmãos no episcopado e no sacerdócio, prezadas mulheres e homens consagrados e
leigos comprometidos, queridas famílias e jovens, baptizados e catecúmenos – dirijo a minha saudação
fraterna e amiga, que estendo a quantos estão unidos connosco através da rádio e da televisão.
Sentidamente agradeço a presença do Senhor Presidente da República e demais Autoridades, com
menção particular do Presidente da Câmara de Lisboa que teve a amabilidade de honrar-me com a entrega
das chaves da cidade.
Lisboa amiga, porto e abrigo de tantas esperanças que te confiava quem partia e pretendia quem te
visitava, gostava hoje de usar as chaves que me entregas para alicerçar as tuas esperanças humanas na
Esperança divina. Na leitura há pouco proclamada da Epístola de São Pedro, ouvimos dizer: «Eu vou pôr
em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa. E quem nela acreditar não será confundido». E o
Apóstolo explica: «Aproximai-vos do Senhor. Ele é a pedra viva, rejeitada, é certo, pelos homens, mas aos
olhos de Deus escolhida e preciosa» (1 Pd 2, 6.4).
Irmãos e irmãs, quem acreditar em Jesus não será confundido: é Palavra de Deus, que não Se engana
nem pode enganar. Palavra confirmada por uma «multidão que ninguém pode contar e provém de todas as
nações, tribos, povos e línguas», e que o autor do Apocalipse viu vestida de «túnicas brancas e com
palmas na mão» (Ap 7, 9). Nesta multidão incontável, não estão apenas os Santos Veríssimo, Máxima e
Júlia, aqui martirizados na perseguição de Diocleciano, ou São Vicente, diácono e mártir, padroeiro
principal do Patriarcado; Santo António e São João de Brito que daqui partiram para semear a boa
semente de Deus noutras terras e gentes, ou São Nuno de Santa Maria que, há pouco mais de um ano,
inscrevi no livro dos Santos. Mas é formada pelos «servos do nosso Deus» de todos os tempos e lugares,
em cuja fronte foi traçado o sinal da cruz com «o sinete de marcar do Deus vivo» (Ap 7, 2): o Espírito
Santo. Trata-se do rito inicial cumprido sobre cada um de nós no sacramento do Baptismo, pelo qual a
Igreja dá à luz os «santos».
Sabemos que não lhe faltam filhos insubmissos e até rebeldes, mas é nos Santos que a Igreja
reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda.
Irmana-os, a todos, a vontade de encarnar na sua existência o Evangelho, sob o impulso do eterno
animador do Povo de Deus que é o Espírito Santo. Fixando os seus Santos, esta Igreja local concluiu
justamente que a prioridade pastoral hoje é fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante
da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política. Muitas
vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por
suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista. Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas
estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se
tornar insípido?
Para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de
Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas,
vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição
de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja. Portanto a nossa fé tem
fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. Assim há um vasto esforço
capilar a fazer para que cada cristão se transforme em testemunha capaz de dar conta a todos e sempre da
esperança que o anima (cf. 1 Pd 3, 15): só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada
coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do
mal, sobre a morte e a vida do Além.
Queridos Irmãos e jovens amigos, Cristo está sempre connosco e caminha sempre com a sua Igreja,
acompanha-a e guarda-a, como Ele nos disse: «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28,
20). Nunca duvideis da sua presença! Procurai sempre o Senhor Jesus, crescei na amizade com Ele,
comungai-O. Aprendei a ouvir e a conhecer a sua palavra e também a reconhecê-Lo nos pobres. Vivei a
vossa vida com alegria e entusiasmo, certos da sua presença e da sua amizade gratuita, generosa, fiel até à
morte de cruz. Testemunhai a alegria desta sua presença forte e suave a todos, a começar pelos da vossa
idade. Dizei-lhes que é belo ser amigo de Jesus e que vale a pena segui-Lo. Com o vosso entusiasmo,
mostrai que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do
mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a
alegria verdadeira e duradoura.
Buscai diariamente a protecção de Maria, a Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. Ela, a Toda
Santa, ajudar-vos-á a ser fiéis discípulos do seu Filho Jesus Cristo.


SAUDAÇÃO A NOSSA SENHORA

Saudação a Nossa Senhora do senhor Bispo de Santarém, D. Manuel Pelino Domingues na capelinha das aparições, no início da Peregrinação diocesana de Santarém ao Santuário de Fátima a 9 de Maio de 2010:

 

Nós vos louvamos Nossa Mãs do céu, porque acreditastes na mensagem de Deus, transmitida pelo anjo, e vos disponibilizastes para servir o desígnio do Altíssimo. Assim vos tornastes medianeira de salvação para todos nós.

Nós vos agradecemos a visita que santificou este lugar com a vossa presença e o tornou propício para escutarmos a vossa mensagem. Viemos hoje, como membros da diocese de Santarém, em peregrinação ao vosso santuário de Fátima, para nos encomendarmos à vossa protecção e solicitude materna. Nestes tempos difíceis para a fé, queremos aprender convosco a cultivar uma fé sólida, esclarecida, traduzida na união fraterna e no serviço ao reino de Deus.

Ensinai-nos a escutar a Palavra de Deus, alicerce seguro da fé, e a guardá-la no coração para que nos converta ao evangelho, nos fortaleça na esperança e enriqueça a nossa exitência com o amor. Despertai-nos para uma comunhão eclesial mais forte e uma participação mais empenhada na missão da Igreja.

Intercedei por nós Mãe bendita, protegei esta comunidade diocesana, dai esperança aos idosos, fortalecei o amor e a união das famílias, guai os nosos jovens no caminho da vida, ajudai as nossas crianças a crescer em idade, em sabedoria e em graça.

Neste ano sacerdotal, nós vos pedimos que intercedais pelos nossos sacerdotes para que exerçam com sabedoria e zelo o ministério ordenado conformando-se cada vez mais à imagem do vosso Filho. Pedi connosco ao Senhor da Messe que desperte vocações sacerdotais para esta porção do povo de Deus de modo que não faltem pastores às nossas comunidades.

Vós que sois a estrela da manhã, guiai-nos no caminho de Jesus, fazei brilhar sobre nós a luz do Senhor Ressuscitado que ilumine os nossos corações e irradie à nossa volta para que o testemnho da a nossa fé brilhe diante dos homens.


segunda-feira, 10 de maio de 2010

PEREGRINAÇÃO DIOCESANA



  1. Peregrinos para a cidade de Deus


“Que alegria quando me disseram vamos para a casa do Senhor”!
É a alegria e o fortalecimento da fé que vimos procurar na peregrinação
ao santuário de Fátima. Neste lugar santo evocamos a visita de Nos
sa
Senhora, revivemos a sua mensagem, ouvimos mais atentamente o seu apelo
à conversão ao evangelho como caminho para purificar e renovar a Igreja.
O santuário tornou-se um lugar privilegiado da presença de Deus onde
a força da graça divina nos envolve profundamente, nos convida à
beleza da vida nova em Cristo e nos orienta na construção de um mundo
novo. A luz e o amor de Deus que a Virgem Nossa Senhora prometeu, através
dos pastorinhos, são oferecidos a todos nós peregrinos para renovar
a nossa vida cristã nestes tempos difíceis para fé.


Saúdo todos os fiéis peregrinos, membros do povo santo de Deus na
riqueza dos ministérios e carismas, de comunidades e movimentos, os
bispos participantes no ministério apostólico, os presbíteros colaboradores
na mesma mis
são, os diáconos servidores do evangelho, os religiosos
(as), os seminaristas, os leigos, todos irmãos e irmãs em Jesus Cristo.
Congregados à volta do Senhor com a protecção da Mãe do Céu, somos
uma manifestação da Igreja, cidade santa, Jerusalém celeste como
referia a segunda leitura colhida do Apocalipse. Apesar de empobrecida
pelas nossas faltas, a Igreja é adornada com os dons de Deus que a
tornam bela e resplandecente. Alicerçada no sólido fundamento dos
doze apóstolos, continua a missão de Jesus de reunir todos os povos
numa fraternidade universal, significada pelas três portas em cada
um dos pontos cardeais.


Ser cristão é pôr-se a caminho para a cidade santa cujo
arquitecto e construtor é Deus, como afirma a Carta aos Hebreus,
é cultivar a esperança d
o novo céu e da nova terra onde
habita a paz e a justiça, é procurar a novidade constante de Deus.
A nossa condição de discípulos é a condição de peregrinos: habitamos
no mundo mas não somos do mundo, aspiramos às realidades do alto,
procuramos os valores espirituais do mundo novo inaugurado pela ressurreição
de Cristo, a civilização do amor, da verdade e da santidade. Esse
é o significado e o fruto da peregrinação. Desinstala-nos da segurança
e das comodidades, rompe o nosso individualismo, quebra a monotonia
e incentiva-nos a reanimar a fé, a reacender o entusiasmo, a crescer
como povo santo chamado das trevas à luz admirável de Deus.


2. Brilhe a vossa
Luz


Somos hoje tentados
pelo comodismo, pela indolência na prática da fé, pelo desinteresse
das realidades espirituais. Como afirmou o cardeal Ratzinger, antes
de ser nomeado Papa, “a maior heresia dos tempos actuais é o cansaço da fé, o desgaste
com que muitos cristãos vivem a sua relação com Cristo; aquilo que
deveria ser motivo de alegria contagiante tornou-se baço”
.
Sem alegria e sem entusiasmo o cristianismo torna-se um formalismo vazio,
um ritualismo sem vida. Peçamos ao Senhor por intercessão de Maria
que o exercício da peregrinação nos anime a progredir no caminho
do evangelho. Aprendamos com Nossa Senhora a escutar e a guardar a palavra
de Jesus, a dispor o coração para acolher o Espírito Santo, a servir
o desígnio de Deus: “Quem me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará. Nós viremos
a ele e faremos nele a nossa morada” (Jo 14, 23).
Esforcemo-nos
por crescer na formação cristã através do contacto mais assíduo
e da prática mais fiel da Palavra do Senhor que nos ilumina e configura
à sua imagem. Não podemos ser discípulos sem disciplina séria no
seguimento de Jesus Cristo. Se Cristo habita em nós e determina o nosso
estilo de vida, então a sua glória resplandece em nós e, através
do nosso testemunho, irradia para o mundo: “Brilhe a vossa luz”.


3. Promessa do Espírito Santo


Tão elevada missão parece estar acima das nossas possibilidades
humanas. Acr
editamos que Cristo habita em nós mas, na realidade,
continuamos expostos às nossas dúvidas e fraquezas, sujeitos aos nossos
impulsos egoístas, incapazes de compreender e seguir o caminho da santidade.
Jesus tranquiliza-nos, como ouvimos no evangelho: “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração: O Espírito
Santo que o Pai enviará em meu nome vos ensinará todas as coisas e
vos recordará tudo o que Eu vos disse”
. O Espírito Santo
não resolve todos os nossos problemas mas comunica-nos o que é necessário
para vencer o mal e seguir o caminho da verdade.


Neste tempo pascal,
ao aprofundarmos a vida nova que o Senhor Ressuscitado nos chama a viver,
somos também confortados com a promessa da força do Espírito Santo
que derrama em nossos corações o amor e faz de nós novas criaturas: class="Standard__Char">“Aquele que ressuscitou
Jesus de entre os mortos dará nova vida aos vossos corpos mortais pelo
Seu Espírito que habita em vós”. (Rm 8, 10-11).;
é o mandamento
novo do amor que faz de nós homens novos; é o amor que salva o mundo
do mal, do ódio, da violência, da cegueira. Se escutarmos a voz do
Espírito Santo, que ressoa nas Sagradas Escrituras, Ele será o nosso
Guia interior no caminho para a verdade, para o amor e para a sabedoria.


O trecho do livro
dos Actos, que ouvimos na primeira leitura, mostra-nos a acção do
Espírito Santo que guia os apóstolos na missão da Igreja e, através
deles, garante a comunhão eclesial que integra as diferenças legítimas
na unidade e derruba os muros que dividem ou os particularismos que
isolam. “O Espírito Santo e nós decidimos”, afirmava São Tiago
para fundamentar a orientação de abrir a porta da fé cristã aos
gentios. Face aos desentendimentos que surgem nas comunidades cristãs,
não só nas primitivas mas em todas as épocas, e ameaçam a unidade,
os apóstolos e os seus sucessores têm a missão de discernir os caminhos
do Espírito Santo e garantir a comunhão eclesial, condição indispensável
para a difusão do evangelho no mundo. Peçamos ao Espírito Santo que
nos ajude a promover uma maior união e integração no único Corpo
de Cristo que cresce com a colaboração conjugada de todas as suas
células (cf Ef 4,16).


Realizamos a nossa
peregrinação nas vésperas da visita do Santo Padre Bento XVI que
coincide com o centenário do nascimento da beata Jacinta e com os dez
anos da beatificação dos pastorinhos. A pequena Jacinta é um exemplo
admirável de dedicação à Igreja e veneração ao Santo Padre. Mostra-nos,
de forma encantadora, a alegria de dar e colaborar. Bento XVI vem como
continuador do Apóstolo Pedro confirmar-nos na fé, nestes tempos de
descrença e relativismo, e incentivar-nos à missão de levar a luz
do amor e da esperança ao mundo. Saibamos acolhê-lo com alegria e
atenção. Que a visita do sucessor de Pedro e a memória da beata Jacinta
sejam um incentivo a seguir o exemplo da Virgem de Nazaré, estrela
da esperança no seguimento de Cristo luz do mundo.


Fátima, 9 de Maio
de 2010.


+ Manuel Pelino Domingues,
Bispo de Santarém