HOMILIA DO SANTO PADRE NA MISSA DO TERREIRO DO PAÇO
LISBOA, 11 DE MAIO DE 2010
Queridos Irmãos e Irmãs, Jovens
«Ide fazer discípulos de todas as nações, […] ensinai-lhes a cumprir tudo quanto vos mandei. E Eu
estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Estas palavras de Cristo ressuscitado
revestem-se de um significado particular nesta cidade de Lisboa, donde partiram em grande número
gerações e gerações de cristãos – bispos, sacerdotes, consagrados e leigos, homens e mulheres, jovens e
menos jovens –, obedecendo ao apelo do Senhor e armados simplesmente com esta certeza que lhes
deixou: «Eu estou sempre convosco». Glorioso é o lugar conquistado por Portugal entre as nações pelo
serviço prestado à dilatação da fé: nas cinco partes do mundo, há Igrejas locais que tiveram origem na
missionação portuguesa.
Nos tempos passados, a vossa saída em demanda de outros povos não impediu nem destruiu os
vínculos com o que éreis e acreditáveis, mas, com sabedoria cristã, pudestes transplantar experiências e
particularidades abrindo-vos ao contributo dos outros para serdes vós próprios, em aparente debilidade
que é força. Hoje, participando na edificação da Comunidade Europeia, levai o contributo da vossa
identidade cultural e religiosa. De facto, Jesus Cristo, assim como Se uniu aos discípulos a caminho de
Emaús, assim também caminha connosco segundo a sua promessa: «Estou sempre convosco, até ao fim
dos tempos». Apesar de ser diferente da dos Apóstolos, temos também nós uma verdadeira e pessoal
experiência da presença do Senhor ressuscitado. A distância dos séculos é superada e o Ressuscitado
oferece-Se vivo e operante, por nós, no hoje da Igreja e do mundo. Esta é a nossa grande alegria. No rio
vivo da Tradição eclesial, Cristo não está a dois mil anos de distância, mas está realmente presente entre
nós e dá-nos a Verdade, dá-nos a luz que nos faz viver e encontrar a estrada para o futuro.
Presente na sua Palavra, na assembleia do Povo de Deus com os seus Pastores e, de modo eminente,
no sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, Jesus está connosco aqui. Saúdo o Senhor Cardeal-Patriarca
de Lisboa, a quem agradeço as calorosas palavras que me dirigiu, no início da celebração, em nome da sua
comunidade que me acolhe e que abraço nos seus quase dois milhões de filhos e filhas; a todos vós aqui
presentes – amados Irmãos no episcopado e no sacerdócio, prezadas mulheres e homens consagrados e
leigos comprometidos, queridas famílias e jovens, baptizados e catecúmenos – dirijo a minha saudação
fraterna e amiga, que estendo a quantos estão unidos connosco através da rádio e da televisão.
Sentidamente agradeço a presença do Senhor Presidente da República e demais Autoridades, com
menção particular do Presidente da Câmara de Lisboa que teve a amabilidade de honrar-me com a entrega
das chaves da cidade.
Lisboa amiga, porto e abrigo de tantas esperanças que te confiava quem partia e pretendia quem te
visitava, gostava hoje de usar as chaves que me entregas para alicerçar as tuas esperanças humanas na
Esperança divina. Na leitura há pouco proclamada da Epístola de São Pedro, ouvimos dizer: «Eu vou pôr
em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa. E quem nela acreditar não será confundido». E o
Apóstolo explica: «Aproximai-vos do Senhor. Ele é a pedra viva, rejeitada, é certo, pelos homens, mas aos
olhos de Deus escolhida e preciosa» (1 Pd 2, 6.4).
Irmãos e irmãs, quem acreditar em Jesus não será confundido: é Palavra de Deus, que não Se engana
nem pode enganar. Palavra confirmada por uma «multidão que ninguém pode contar e provém de todas as
nações, tribos, povos e línguas», e que o autor do Apocalipse viu vestida de «túnicas brancas e com
palmas na mão» (Ap 7, 9). Nesta multidão incontável, não estão apenas os Santos Veríssimo, Máxima e
Júlia, aqui martirizados na perseguição de Diocleciano, ou São Vicente, diácono e mártir, padroeiro
principal do Patriarcado; Santo António e São João de Brito que daqui partiram para semear a boa
semente de Deus noutras terras e gentes, ou São Nuno de Santa Maria que, há pouco mais de um ano,
inscrevi no livro dos Santos. Mas é formada pelos «servos do nosso Deus» de todos os tempos e lugares,
em cuja fronte foi traçado o sinal da cruz com «o sinete de marcar do Deus vivo» (Ap 7, 2): o Espírito
Santo. Trata-se do rito inicial cumprido sobre cada um de nós no sacramento do Baptismo, pelo qual a
Igreja dá à luz os «santos».
Sabemos que não lhe faltam filhos insubmissos e até rebeldes, mas é nos Santos que a Igreja
reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda.
Irmana-os, a todos, a vontade de encarnar na sua existência o Evangelho, sob o impulso do eterno
animador do Povo de Deus que é o Espírito Santo. Fixando os seus Santos, esta Igreja local concluiu
justamente que a prioridade pastoral hoje é fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante
da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política. Muitas
vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por
suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista. Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas
estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se
tornar insípido?
Para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de
Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas,
vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição
de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja. Portanto a nossa fé tem
fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. Assim há um vasto esforço
capilar a fazer para que cada cristão se transforme em testemunha capaz de dar conta a todos e sempre da
esperança que o anima (cf. 1 Pd 3, 15): só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada
coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do
mal, sobre a morte e a vida do Além.
Queridos Irmãos e jovens amigos, Cristo está sempre connosco e caminha sempre com a sua Igreja,
acompanha-a e guarda-a, como Ele nos disse: «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28,
20). Nunca duvideis da sua presença! Procurai sempre o Senhor Jesus, crescei na amizade com Ele,
comungai-O. Aprendei a ouvir e a conhecer a sua palavra e também a reconhecê-Lo nos pobres. Vivei a
vossa vida com alegria e entusiasmo, certos da sua presença e da sua amizade gratuita, generosa, fiel até à
morte de cruz. Testemunhai a alegria desta sua presença forte e suave a todos, a começar pelos da vossa
idade. Dizei-lhes que é belo ser amigo de Jesus e que vale a pena segui-Lo. Com o vosso entusiasmo,
mostrai que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do
mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a
alegria verdadeira e duradoura.
Buscai diariamente a protecção de Maria, a Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. Ela, a Toda
Santa, ajudar-vos-á a ser fiéis discípulos do seu Filho Jesus Cristo.
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