segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Brilhe a Vossa luz diante dos homens

Apresentação da Carta Pastoral
“BRILHE A VOSSA LUZ DIANTE DOS HOMENS”

1.CONTEXTO DA CARTA E SIGNIFICADO
Saúdo cordialmente todos os dedicados colaboradores na missão da Igreja, amados de Deus e chamados a ser santos e dou graças a Deus pelo dom do sacerdócio (ou do diaconado) que vos foi confiado para servir o povo de Deus. Neste Ano Sacerdotal manifesto o profundo reconhecimento da Igreja pelo trabalho sacrificado que realizais. Somos poucos na diocese, mas com a graça de Deus que opera em nós e unidos em comunhão eclesial podemos cumprir a missão que o Senhor espera de nós. Saúdo os que estão pela primeira vez como colaboradores na missão apostólica nesta diocese e agradecemos a Deus a eles e aos seus bispos que os enviaram a missão que vêm realizar.
Dizia o cardeal Humes em Fátima que a “A Igreja caminha pelos pés dos sacerdotes. Quando eles se movem a Igreja mexe. Quando eles param a Igreja para também. Por isso a Igreja deve muito aos seus padres e admira-os”. No arranque do ano pastoral é, certamente, com vontade de nos mexermos e imprimirmos impulso missionário à Igreja Diocesana que damos início às actividades pastorais.
Na definição do plano pastoral de cada ano, continuamos a seguir a inspiração dos discípulos de Emaús. Este Ícone tem-nos acompanhado desde o ano 2000 e ajudado a descobrir dimensões fundamentais da fé, algumas pouco consciencializadas e no entanto essenciais do cristianismo. Dimensões que fazem a diferença cristã, que alicerçam a nossa identidade de discípulos de Cristo.
No primeiro triénio aprofundamos a escuta da Palavra. No início do mistério cristão está a Palavra: “In Principio erat Verbum””. Cristão é o que acredita que Deus falou muitas vezes e de muitos modos e nos últimos falou-nos pelo Seu Filho. A fé cristã nasce e alimenta-se da Palavra. Devemos reconhecer que, na pastoral tradicional da Igreja Católica, antes do Vaticano II, nem sempre a Palavra Ocupou o lugar prioritário, Hoje, graças a Deus, a Palavra é valorizada e apoiada pela lectio divina, pedagogia tão rica e tão antiga, recomendada já por São Gregório Magno. “Scriptura crescit cum legente” recomendava este grande papa (A compreensão da Escritura cresce em quem a lê, à medida que se lê). Continuamos, portanto a aprofundar esta forma de leitura orante da Bíblia. Pelo que me é dado observar, tem aumentado na nossa diocese o gosto e o número dos que vão descobrindo a riqueza da Palavra através da “lectio divina”.
No segundo triénio dedicámo-nos aos sacramentos. Cume e fonte da vida cristã, dimensão litúrgica tem sido tradicionalmente mais valorizada na Igreja Católica. A Palavra conduz ao sacramento e o sacramento realiza o que a palavra anuncia. Face à Reforma havia-se criado até a imagem da Igreja dos sacramentos (católica) e da Igreja evangélica da Palavra (Protestante). As duas dimensões, porém, são indissociáveis. Como Santo Agostinho nos lembra: “A palavra é um sacramento audível e o sacramento é uma palavra visível”. Por isso, a evangelização é feita pela palavra e pelos sacramentos. Continuamos, por isso, a prestar atenção à relação Palavra Sacramento. Este ano publicaremos orientações diocesanas para os sacramentos da Iniciação Cristã
No terceiro triénio em curso aprofundamos a vida cristã como comunhão e missão. “Quem acredita nunca está só” foi o lema do ano passado. Pelo Baptismo e pelos sacramentos somos recebidos na comunidade, vivemos em comunidade e somos chamados a construir comunidade. A comunidade recebe de Cristo a missão de iluminar os que andam na escuridão e construir o reino de Deus que é alegria e paz no Espírito Santo. No ano passado, realçamos a dimensão comunitária, este ano pastoral vamos destacar a dimensão missionária que faz também parte integrante do cristianismo: cristão é chamado a ser luz do mundo, missionário e evangelizador.
O Ano Paulino preparou-nos para a missão. São Paulo deu admirável exemplo do envio da Igreja ao mundo. O grande evangelizador viveu a experiência de Damasco como uma luz brilhante que o levou a ver que andava cego, a cair e a levantar-se. Essa luz foi-lhe oferecida para ele comunicar: “Vou enviar-te aos pagãos para lhes abrires os olhos e fazê-los passar das trevas à luz e da sujeição de Satanás para Deus (Act 26,18). De facto, o evangelho é poder de Deus para salvação de todo o crente (Rm 1,16), é uma força que vence o mal, ou seja, a sujeição a Satanás. É o Caminho, a Verdade e a Vida. Esta certeza leva São Paulo a afirmar. “Ai de mim se não evangelizar”.
Encontramos assim várias expressões com o mesmo significado, porventura com acentuações diferentes: evangelizar (anunciar a boa nova); fazer apostolado; ser missionário; ser portador da luz de Cristo; testemunhar a fé;. Escolhemos, apoiados pelos Conselho dos colaboradores, a expressão do Sermão da Montanha: “Brilhe a vossa luz diante dos homens” (Mt 5,16). Luz é uma imagem positiva, irradiante, constantemente presente na Sagrada Escritura (Antigo e Novo Testamento) e na liturgia. O Senhor Jesus é a luz do mundo (lúmen illuminans), luz que nos ilumina e nos transforma em iluminados (“lumen illuminatum”), segundo a expressão de São Gregório Magno. O cristão irradia a luz que Cristo derrama sobre ele (Cf Ef 5,14). A comunidade cristã é a comunidade dos iluminados. Se cada fiel, se cada um de nós for uma pequena luz junta á luz de todos os outros, formamos a cidade situada no cimo do monte que irradia a luz sobre os povos: “ As nações caminharão à sua luz” (Ap 21,24). “Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas, para chegarmos até Ele precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que oferecem a luz recebida dele” (Bento XVI SS 49). Quem são as luzes vizinhas, próximas do nosso quotidiano, as estrelas que guiam a nossa vida? Os que vivem com rectidão, os que concretizam a proposta do evangelho”. Os santos brilham, de forma admirável, como astros brilhante no firmamento da Igreja; os fiéis menos santos, como nós, embora de forma menos intensa, iluminam também o caminho para Deus.
Situada no contexto do Sermão da Montanha, a expressão “Brilhe a vossa luz diante dos homens” realça também a novidade cristã: O cristão vive no mundo, não se separa do mundo mas não vive de acordo com o mundo. É filho da luz e portador da luz. Pela sua forma de viver propõe uma alternativa à vida mundana inspirada pela vaidade, pelo egoísmo, pela sensualidade, pelas trevas da confusão e do pecado. Os discípulos de Jesus, que se esforçam por viver segundo as bem – aventuranças, tornam-se luz do mundo pelas suas boas obras de misericórdia, de solidariedade com os necessitados. Esta expressão esclarece ainda a relação com Cristo, (somos iluminados na medida em que acolhemos a sua luz e esta penetra em nós); e a relação dos cristãos entre si (como cidade situada no cimo do monte formam uma comunidade de iluminados que irradia a luz à sua volta).

2.URGÊNCIA DA MISSÃO

Precisamos de recuperar com urgência e com vigor o dinamismo da missão de levar a luz do evangelho a todos os homens. É a tarefa essencial da Igreja que as mudanças profundas da sociedade tornam ainda mais urgente, como afirma a Evangelii Nuntiandi “Evangelizar constitui de facto a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na Santa Missa”. (EN 14):
Parece ter enfraquecido nos católicos o sentido de missão. A luz do evangelho, em vez de irradiar à volta, parece esconder-se debaixo do alqueire. Muitos cristãos vivem a fé de forma envergonhada e escondida, como Nicodemos que ia de noite dialogar com Jesus para não ser visto. As Igrejas têm menos gente e gente mais idosa. No império do relativismo e do individualismo, a religião parece reduzir-se ao foro privado. Por isso, os tempos actuais desafiam-nos verdadeiramente a uma nova evangelização, como insistentemente nos recomendou o Papa João Paulo II.
A transmissão da fé de geração em geração de pais para filhos conhece uma ruptura. “Eles depois que decidam…” dizem os pais para justificar a sua demissão da tarefa da educação. Sentem-se pouco à-vontade para guiar os filhos na relação com Deus, para os iniciar e aconselhar sobre a prática religiosa. A cultura actual vem agudizar esta situação. Além de desvalorizar o papel educativo da família, favorece o relativismo, o agnosticismo e a indiferença religiosas.
A fé é acusada, por vezes, de ultrapassada. Uma expressão frequente de alguns políticos e governantes é a necessidade de ser moderno, progressista e isso significa aceitar comportamentos fracturantes como o aborto, casamento dos homossexuais e cortar com os sinais religiosos e os valores éticos da matriz cristã: o respeito pela vida, pela família, etc. Mostra-se a tendência a relegar o cristianismo para a esfera privada e a esvaziar a sociedade, concretamente a escola pública, de referências religiosas. O cristianismo é entendido como tradição ultrapassada e inibidora da liberdade e do progresso.
Estão de volta as suspeitas sobre a religião como estádio de evolução da humanidade já ultrapassado (Comte), como fonte de neurose (Freud) ou como o ópio do povo(Marx). O ateísmo está em alta, encontra novos defensores. Sem Deus haverá mais progresso, maior felicidade, maior desenvolvimento da humanidade, prometem estes iluminados. O ateísmo militante reaparece “Provavelmente Deus não existe! Goza a vida”, como foi publicitado em várias cidades da Europa. O ateísmo hoje não é uma questão só de intelectuais. Torna-se presente no seio das nossas comunidades. No diálogo com os jovens candidatos ao crisma, vem ao de cima referências à opinião dos colegas ateus.
O agnosticismo tem alastrado também. Pessoas há que receberam uma tradição cristã e apreciam e respeitam os valores genuínos da fé cristã que conhecem e lêem textos cristãos mas não acreditam. Estão nesta situação vários jornalistas lidos quotidianamente (Público; Expresso; etc). Questionam e criticam as deformações e infidelidades. O agnosticismo parece tornar-se uma moda dos tempos modernos.
Tem crescido igualmente o paganismo que se exprime em manifestações selvagens ou espontâneas de religiosidade como consulta de videntes; leitura de horóscopos; crença na reincarnação.
Outra realidade que, na nossa época, se coloca por vezes em paralelo com a religião, são as ideologias políticas. Há partidos políticos, designadamente o marxismo, que são entendidos como uma religião de salvação secular, cuja ideologia é um dogma mais inquestionável que a verdade revelada da fé cristã, cujos fundadores são venerados com santos (oração ao Pai Lenine).
Aparece mesmo, designadamente em Espanha e em Portugal, um secularismo agressivo, um laicismo arrogante, entendidos como ideologia única, sem respeito pela liberdade religiosa dos crentes. Em Espanha tem havido alguns desacatos contra edifícios de culto católico, fachadas pintadas, frases de intolerância religiosa escritas lugares públicos. Um responsável da juventude socialista afirmou há dias em Espanha que “manter hoje os crucifixos pendurados nas paredes dos colégios é manter viva a chama da intolerância e a imposição”.
Emerge uma sociedade cada vez mais afastada da fé e da matriz cristã. Mais feliz? Mais humana? Mais desenvolvida como prometem os defensores da suspeita religiosa? Não. Em vez do desenvolvimento ético e humano, verifica-se um recuo moral. A sociedade descrente é mais individualista, mais desconfiada, mais egoísta, mais insolidária, mais supersticiosa. Deus faz falta ao homem e à sociedade. Sem Deus o homem fica sem defesa, sem rumo, sem consciência, sem critérios de bem e do mal, fechado no gozo individualista da vida. Sem Deus temos uma humanidade mais pobre e entregue a si mesma. Perde-se a paixão pela verdade, tudo se torna relativo e instrumentalizado em função do ego. Fecham os ouvidos à verdade para os abrir às fábulas, como dizia São Paulo.
Deus faz falta. Sem a luz vinda de Deus a humanidade é surpreendida pela falta de orientação, fica desamparada face ao sofrimento, sem estímulo para discernir o bem do mal e lutar contra o mal. A morte de Deus tem acarretado a morte do homem. Como notou um grande pensador teólogo do século XX (Henri de Lubac): “Não é verdade que o homem não possa organizar a terra sem Deus. O certo é que não pode, afinal de contas, senão organizá-la contra o homem”
Ficará mais emancipada e mais inteligente? Parece suceder o contrário. Mais dependente da moda, da aparência, dos vícios, mais supersticiosa. Como concluía o humorista e filósofo inglês Chesterton: “Desde que os homens deixaram de acreditar em Deus, não é que não acreditem em nada: Pelo contrário, agora acreditam em tudo”.
Na semana passada, veio no “Público” (15 de Setembro 09) um artigo de Maria Filomena Mónica sobre a nova edição de um livro de Chesterton, a “Ortodoxia” em que o autor narra as razões da sua conversão ao cristianismo que a jornalista e historiadora Filomena conclui assim. “Em resumo, a sua conversão foi a forma como ele reagiu à arrogância, limitação e estupidez dos positivistas do seu tempo”. Transcreve depois o que pensa o filósofo sobre o agnóstico comum: “O agnóstico é descrente por uma série de razões – todas elas falsas. Ele duvida porque a Idade Média foi uma idade bárbara, quando a verdade é que não foi; porque o darwinismo está provado, quando a verdade é que não está; porque não há milagres, quando a verdade é que há; porque os monges são preguiçosos, quando a verdade é que eram diligentes; porque as freiras são infelizes, quando a verdade é que são particularmente alegres; porque a arte cristã era triste e apagada, quando a verdade é que era feita de cores berrantes e recoberta a ouro; porque a ciência moderna está a afastar-se do sobrenatural quando a verdade é que está a aproximar-se”. E Filomena Mónica remata: “Muito do que afirma é um disparate, mas isso não me impede de gostar de o ler”.

3. SINAIS DA PROCURA DE DEUS

Os sintomas de recuo da fé cristã desperta em muitos fiéis sensação de serem “o resto de Israel”, ou seja, um número cada vez mais reduzido. Este sentimento provoca algum desconforto, como se fôssemos uma espécie em vias de extinção.
“No entanto a civilização continua mais cristã do que se diz” (Simon 72). Verificamos muitos sinais da procura de Deus. Na Europa, apesar da mentalidade laicista, persistem as tradições cristãs: Nos momentos cruciais da vida humana as pessoas procuram a igreja. São pontos de contacto e de apoio que podem servir da base para a evangelização. As Jornadas JMJ congregam centenas de milhares ou milhões de jovens; Taizé reúne multidões; Fátima ao domingo tem mais participantes que qualquer comício ((100.000 um destes domingos);
O homem procura Deus. “O homem é capaz de Deus” afirma o CIC no 1º capítulo: “Deus não cessa de atrair o homem para si e só em Deus é que o homem encontra e verdade e a felicidade que não se cansa de procurar. São Paulo em Atenas partiu desta constatação e afirmou que Ele não está longe de cada um de nós”. Mas esta relação pode ser esquecida e até explicitamente rejeitada (CIC 29). Os países da cortina de ferro mostram ainda as marcas da propaganda do ateísmo
Na oração universal de Sexta-Feira Santa pedimos ao Senhor (VIII intenção) “pelos que não crêem em Deus para que buscando com sinceridade o que é recto cheguem ao conhecimento do verdadeiro Deus”. O presidente dirige depois esta oração: “Deus eterno e omnipotente que criastes todos os homens para que Vos procurem e, encontrando-vos, em Vós descansem; concedei-lhes que, no meio das dificuldades, percebendo os sinais do Vosso amor e o testemunho dos crentes, todos se alegrem de Vos reconhecer como Único Deus verdadeiro e Pai de todos os homens”. Se a lex orandi é a lex credendi, que nos ensina esta oração? O homem que procura Deus descobre caminhos de acesso: os sinais do amor de Deus e o testemunho dos crentes.
Afirma igualmente que as pessoas têm um sentido e um desejo de bondade, de rectidão, de justiça, de verdade, de perfeição (beleza). Notamos uma grande sensibilidade à injustiça. Procurando o que é recto, bom, belo e verdadeiro chega-se a Deus. São apelos profundos do coração humano que revelam a imagem de Deus gravada em nós. Deus criou o homem para que O procure, como a terra árida procura água.
Para falar de Deus devemos partir dos sinais de procura e situar-nos no tempo e na cultura em vivemos. Deus desperta interesse se responder às questões que o homem vive, se for de encontro às suas interrogações existenciais. Por isso, temos necessidade de conhecer o mundo, analisar a cultura e descobrir a sede de Deus. Notamos sinais de regresso do religioso. Existe abertura à fé e sensibilidade religiosa. Em vez de condenar o mundo, somos chamados a amar o mundo na luz de Deus que de tal modo amou o mundo que lhe entregou o Seu Filho. Fazemos parte do mundo enquanto criação de Deus e somos enviados como portadores da luz do evangelho fonte de esperança para o mundo.

4. CAMINHOS DE EVANGELIZAÇÃO
4.1 Mudança de paradigma na transmissão da fé
As mudanças na acção pastoral são motivadas pela mudança de situação: uma vez que a fé não é apoiada pelo ambiente cristão da sociedade, precisamos de formar os cristãos na vivência de um cristianismo de convicções pessoais, assente na decisão livre e esclarecida de cada um, revitalizado por uma experiência pessoa de fé. Como se alcança este perfil de cristão convicto e participativo? Nos primeiros séculos quando encontrou uma situação idêntica, a Igreja criou uma pedagogia própria inspirada pela intuição do caminho e organizou o catecumenado. Um caminho faz-se caminhando. ”Irão subindo com entusiasmo sempre crescente até ver a Deus em Sião”, como reza um salmo. O catecumenado apresenta-se como um percurso de crescimento contínuo em ordem à configuração com Cristo.
No itinerário catecumenal, desempenham uma importância fundamental os exercícios de vida cristã que permitam ver, experimentar, fazer. Aprendemos quando fazemos (o que ouvimos esquecemos, sobretudo quando não compreendemos bem com o é o caso do mistério cristão). Aprendemos a rezar rezando; aprendemos a escutar Deus na Palavra escutando e fazendo a leitura orante; aprendemos a comunidade partilhando, participando; aprendemos a viver a fé exercitando a sua prática.
Onde se faz hoje esta aprendizagem prática da fé cristã? As crianças, adolescentes e jovens não a fazem em geral na família. E na catequese? Nota-se um sentimento de ineficácia da catequese. Precisamos de recuperar algumas intuições do catecumenado. A carta pastoral refere alguns aspectos no nº 4 – Pedagogia da evangelização partindo da missão do evangelizador e não do caminho do candidato como já foi abordada em documentos anteriores; evangelizador como guia; em comunhão eclesial; empregando a pedagogia dos sinais (ícones; rituais; experiência pessoal); caminho em comunidade; importância do primeiro anúncio.
No percurso catecumenal é fundamental e decisivo o primeiro passo ou primeira evangelização ou primeiro anúncio que dá início ao percurso da fé. Dedicar-se ao primeiro anúncio é um desafio que ajuda a Igreja a renovar-se e é também uma fonte de reanimação da vida sacerdotal. No Kerigma ou “missão ad gentes”, os fiéis, nomeadamente o sacerdote, redescobrem o dom e a alegria de levar uma boa nova aos que andam sem esperança.
Temos propostas do primeiro anúncio já experimentadas, à nossa disposição, e possibilidade de encontrar outras. Precisamos de dar atenção e tempo a novos caminhos para realizar uma nova evangelização e anunciar o Kerigma.
Concluindo e repetindo:
a) na dinâmica de evangelização e na perspectiva de iniciação à experiência pessoal de fé, desempenham uma função importante os exercícios de vida cristã como retiros, oração pessoal e comunitária, vigílias de oração com momentos de silêncio e de partilha, peregrinações, o contacto com a memória do cristianismo, etc.
b) inspirar a nossa acção pastoral pela pedagogia catecumenal significa pôr em funcionamento as etapas do crescimento cristão: 1 proporcionar um encontro jubiloso (feliz) com Jesus Cristo (primeiro anúncio); 2 oferecer propostas acessíveis de formação permanente no sentido vital referido; 3 comunicar a experiência pessoal de fé a outros (grupo; família; comunidade); 4 participar nos serviços pastorais da comunidade, designadamente no serviço de acolhimento e visitação.
4.2. Mudança de estilo
Da manutenção à missão. O estilo missionário confere força centrífuga à acção pastoral: em vez de apenas atender e assistir os que vem porque já estão motivados, hoje é igualmente importante ir à procura, chamar, cativar, sensibilizar, convidar.
Antes de mais, acolher os que vêm, ouvindo-os com atenção, mesmo que seja pouco tempo. As pessoas têm necessidade de ser conhecidas pelo nome, ouvidas, apreciadas, compreendidas. Por isso, é indispensável definir e anunciar na comunidade tempos de atendimento.
Mas o estilo missionário leva-nos a ir ao encontro de todos, mesmo dos que não vêm, dos afastados, dos caídos e feridos. Através da presença nos lugares de convívio, de cultura e de sofrimento, da visita domiciliar, da saudação amiga, do convite pessoal.
Precisamos também de chamar os distraídos, de motivar os que não vêm. O som dos sinos já não faz chegar o chamamento da Igreja aos destinatários. Como ir ao encontro deles e chamá-los? Cada um vai descobrindo formas concretas, como: Fazer campanhas para as fazer chegar às pessoas através de desdobráveis, de contactos pessoais, da comunicação social. Precisamos de chegar aos nossos contemporâneos e motivá-los
para a celebração do sacramento do matrimónio; para o baptismo; para a catequese dos filhos; para as vocações sacerdotais. Estas realidades nem sempre aparecem espontaneamente. Temos de as despertar “in loco”, com trabalho de campo.
Mudança de tom. O Monge Anselm Grün, em Fátima, no Simpósio, realçou a importância de transmitir imagens positivas do cristianismo. De facto, evangelizar é comunicar uma boa nova, uma notícia agradável, jubilosa. Vale a pena ser sacerdote para ajudar as pessoas a viver de cabeça erguida, com ânimo e esperança no futuro que a Deus pertence. O cristianismo identifica-se pelo sinal da cruz mas esta é uma porta que abre para a ressurreição. Deve ser apresentado, portanto, como um caminho para uma vida mais bela, irradiante, realizada. Renunciamos para alcançar a liberdade, a paz, o amor e a justiça. O cristianismo é um humanismo, uma proposta de liberdade, um serviço à dignidade da pessoa e à qualidade de vida na sociedade humana.
Na nossa pregação devemos anunciar caminhos e indicar saídas para a crise em vez de lamentar apenas e condenar. Os crentes ao sair das celebrações para regressar à vida quotidiana deveriam deixar transparecer no rosto a alegria e a esperança da fé.
O tom positivo da pregação está associado e decorre de uma visão positiva da vida, da igreja, dos outros, de nós mesmos. Devemos aprender a ver as coisas boas da vida, a vislumbrar a luz para além das trevas, a apreciar as qualidades sem nos fixarmos nos defeitos. Por vezes restringimos a nossa apreciação a um calcanhar de Aquiles e chegamos a juízos mesquinhos longe da realidade global da pessoa. Ou seja, devemos aprender a ver na luz de Deus, na perspectiva do Seu amor tanto os outros como a nós, tanto a sociedade como a igreja.
A apresentação de imagens positivas convida-nos a recorrer à linguagem concreta e viva das imagens, tanto da Bíblia como do património cultural, a recorrer à música, a encenações, eventos. Jesus empregava uma linguagem viva que deve inspirar a nossa: linguagem dos sinais, dos gestos, dos exemplos, das parábolas. Precisamos de ícones, de exemplos vivos e cativantes (os santos como comentário ao evangelho). As homilias necessitam mais do que nunca, de uma preparação cuidada para que sejam breves, interessantes, organizadas e centradas num tema.
Mudança de relação com a sociedade. A evangelização é um serviço à sociedade e às pessoas. Por isso, devemos adoptar um estilo de relação marcado pelo diálogo e pela solidariedade e com a sociedade, um estilo de serviço e não de poder.
Não podemos esquecer que o diálogo tem dois tempos: 1º ouvir, compreender, aprender; 2º tomas a palavra a visão e o caminho da fé. Após o Concílio, reconhecemos hoje que ficámos só no primeiro tempo. Procuramos corresponder às expectativas da sociedade mas omitimos frequentemente a proposta da fé, o anúncio do pecado, da graça, a proposta da espiritualidade, da humildade, da conversão a Jesus Cristo. “Alguns interpretaram a abertura ao mundo não como uma exigência de missão mas como uma secularização” (Bento XVI). O cristianismo é sal e luz, fermento que transforma.
Passar da manutenção à evangelização não se trata, portanto, de criar novas estruturas ou iniciativas mas de imprimir dinamismo missionário aos serviços, movimento e organização que temos já.

5. PERFIL MISSIONÁRIO DO CRISTÃO E DA COMUNIDADE

1.O poder das trevas desafia-nos a ser missionários
O poder das trevas leva-nos a recorrer com confiança a Deus, na oração, e a cumprir o mandato missionário de Jesus de forma dedicada e inteligente. Como vencer as trevas com a luz de Cristo? O segredo está na renovação espiritual dos crentes. Na medida em que forem fiéis ao desígnio de Deus “que os predestinou para serem uma imagem idêntica à de Seu Filho” (Rm 29), então a luz de Cristo pode transparecer no rosto deles e, assim, iluminar o mundo.
2.Perfil missionário do cristão
O cristão é, antes de mais, discípulo de Cristo. Descobriu em Cristo um amigo em quem pode confiar, o caminho que conduz à verdade e à vida, o mestre que vale a pena seguir, o Salvador a quem entrega a realização da sua existência. Na medida em que cada cristão se converter em discípulo, nessa medida será também missionário.
Discípulo não é apenas uma pessoa religiosa com fé em Deus, mas aquele que encontrou no seu caminho Cristo Ressuscitado, como Paulo no caminho de Damasco, e em Cristo descobriu o rosto visível de Deus.
A força interior do discípulo alicerça-se na sua experiência pessoal de fé. O discípulo é o que está unido ao Mestre, navega com Ele na mesma nave que é a Igreja e, por isso, não teme as tempestades. A experiência de fé cultiva-se com exercícios espirituais, amadurece progressivamente na leitura meditada e orante da Bíblia e na catequese, torna-se viva com a atitude de oração, a celebração dos sacramentos e a participação
Jesus dá muita importância à formação dos discípulos. Chama-os de entre a multidão para estarem mais próximos d’Ele, explica-lhes pacientemente as parábolas, corrige as suas fragilidades, ensina-lhes o caminho da verdade, da liberdade, da fraternidade, prepara-os para depois os enviar a anunciar o evangelho.
Discípulo e missionário é o perfil do cristão capaz de levar a luz de Cristo ao mundo envolvido pelas trevas. Um cristão é portador da luz quando alcança convicções firmes, quando está esclarecido da sua identidade e responsabilidade; um cristão é capaz de iluminar quando adopta uma atitude construtiva e confiante perante o mundo: “Não tenhais medo! Eu venci o mundo!”
3.Mediações para a missão
O discípulo e missionário irradia a luz de Cristo antes de mais pelas suas obras.
O testemunho de vida é complementado pelo anúncio explícito de Jesus Cristo (EN 22 e 42).
O anúncio explícito passa pelo contacto pessoal (EN 46: ““haverá melhor forma de evangelizar do que transmitir a sua experiência pessoal de fé?” (EN 46).
A comunhão eclesial, já presente no apostolado individual, encontra expressão específica e maior força nos grupos e movimentos eclesiais e nas comunidades cristãs.
3.Perfil da comunidade missionária
A mediação principal da evangelização é a Igreja. “A luz de Cristo resplandece no rosto da Igreja, anunciando o evangelho a todos os povos” (LG 1).
Uma comunidade missionária começa por ser uma comunidade de discípulos preocupada por transmitir a fé, irradiar a luz, congregar os que andam dispersos, fortalecer a fé dos membros frágeis ou confusos e procurar os afastados. Uma comunidade missionária não se ocupa apenas dos que já vêm mas está aberta e têm como destinatários também os que estão de fora.
Para formar uma comunidade missionária é necessário chamar pessoas para fazerem o caminho de discípulos. De entre a multidão passiva das nossas paróquias, temos de convidar alguns para um grupo bíblico, outros para uma iniciativa do primeiro anúncio, outros ainda para prepararem, através do catecumenado, algum sacramento da iniciação cristã.
No sentido de animar a dimensão missionária da vida cristã e das comunidades propõe-se que se forme um grupo especificamente dedicado à missão, “grupo de acolhimento e missão (ou visitação)”.
A preocupação missionária deve estar presente também nos serviços pastorais (catequese; liturgia; caridade, administração do património; presença activa e construtiva da sociedade justa e fraterna).
A vitalidade missionária da comunidade está dependente ainda da prática da corresponsabilidade. Para que uma comunidade possa realizar com qualidade tão diversas actividades, e face à actual diminuição do clero, é indispensável pôr em funcionamento uma equipa responsável de catequese com função de coordenação e formação; uma equipa orientadora e dinamizadora da liturgia; de uma equipa de caridade; de uma equipa familiar que se dedique à evangelização e formação da família; de um grupo de jovens que tenha iniciativas em ordem a evangelizar outros jovens.

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